quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Agosto, Mês de Exu... Quem Disse Isso?!?

O mês de agosto é considerado um mês aziago, de mau agoro e péssimo para empreitadas de negócios, viagens e casamentos. Esta é a crendice vulgarmente conhecida e passada de pai para filho ao longo dos anos.
De acordo com a crença nordestina, o dia mais aziago do ano é 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, quando o diabo se solta do inferno. Pereira da Costa escreve (Folclore Pernambucano): "O diabo aparece furtivamente, iludindo a vigilância dos arcanjos, que o trazem sob as suas vistas, armados de flamejantes espadas; mas, no dia de São Bartolomeu, a 24 de agosto, solta-se licenciadamente, e fica em plena liberdade. Por isso é prudente a gente prevenir-se para não cair nas suas ciladas(...) Agosto é um mês aziago, é um mês de desgostos; e é de mau agouro para casamentos, mudança de casas e o empreendimento de qualquer negócio de importância."
Leonardo Mota também registrou (Violeiros do Norte): "Escreveu o Barão de Studart, num rol de superstições cearenses: "Não se deve empreender viagem, dia de São Bartolomeu (24 de agosto) porque nesse dia o diabo anda solto". Pois bem: os irmãos Branesse, fugitivos da Penitenciária de Fortaleza e que, aliás, eram dados a superstições, porquanto os seus cadáveres foram encontrados com patuás, empreenderam nesse dia a viagem... da Eternidade, em fatal encontro com o destacamento do capitão Bezerra de Maria. Foi isso exatamente no dia 24 de agosto, isto é, sexta-feira da semana passada, o tal dia de São Bartolomeu, em que não se deve empreender viagem. Essa superstição sobre o 24 de agosto é comum em todo o nordeste."
"Em dia de São Bartolomeu tem o demo uma hora de seu." (Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira, v. III, 158, Lisboa, 1929).
João Alfredo de Freitas diz: "Há uns dias durante o ano, a que chamam aziagos, que trazem sempre um desastre para os pobres viventes. É nesses dias que se soltam as almas. Elas, as prisioneiras que passam a vida tristonha e macambúzia, sentem o maior dos prazeres, em verem-se livres um momento. Um milhão de idéias invadem-lhe o crânio e, então, quantas pilhérias não imaginam fazer aos habitantes do nosso planeta, que as temem em excesso?".
Ora, o 24 de agosto ficou conhecido mundialmente como o dia em que os católicos assassinaram covardemente milhares de protestantes na noite que ficou conhecida como a "Noite de São Bartolomeu". E é por causa dessa crença no dia mais aziago (azarento, funesto) do ano que muitos seguidores das religiões africanistas definiram como sendo o dia de Exu Tranca Ruas das Almas, já que preconceituosamente, o Exu africano foi associado ao Diabo das crenças cristãs. E,assim, o mês inteiro foi consagrado a Exu, como se esse Orixá Africano fosse o próprio "Coisa-Ruim".
Pois bem, a verdade é que Exu não é o diabo e não se presta à prática do mal, como muitos erroneamente acreditam e divulgam. Exu é combatente do mal. É ele quem tem a incumbência de proteger os homens das investidas malfazejas de espíritos atrasados, enfermiços e que se comprazem no mal. Sendo um soldado da Lei, é ele quem tem a tarefa de executar a Lei Cármica naqueles que a infringem sob o seu livre-arbítrio.
É com esse propósito de aniquilar as forças do mal que os umbandistas oferendam a Exu nos pontos de força exatamente no mês de agosto.

(Baseado em CASCUDO, Luís da Câmara, Dicionário do folclore brasileiro e MOTA, Leonardo, Violeiros do norte)

Você Sabia...?

Você sabia...

Que a Umbanda é uma religião surgida no Brasil, no início do Século XX, e os primeiros registros históricos informam que isto aconteceu numa sessão espírita?

Que o médium Zélio Fernandino de Moraes recebeu a incorporação de um Espírito que se identificou com o nome de "Caboclo das Sete Encruzilhadas"?

Que o Caboclo das Sete Encruzilhadas, anunciador da Religião de Umbanda, determinou que nos cultos umbandistas não deveria existir o sacrifício de animais e que as vestes ritualísticas dos seus seguidores deveriam ser brancas?

Que dentro da Religião de Umbanda há inúmeras correntes de pensamentos diversificando assim os rituais e as formas de Culto, porém mantendo a essência dos seus fundamentos?

Que no dia 16 de maio de 2012, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei 12.644, a qual institui o Dia Nacional da Umbanda, a ser comemorado todo dia 15 de novembro a partir do ano de 2012?

Exu... Nem Anjo, Nem Demônio.

Exu é um dos grandes pontos de conflito nas religiões de raíz africana com relação às outras religiões, por falta de entendimento, pela ignorância e pelo preconceito.
Muitos acreditam que os Exus são Demônios, maus, ruins, perversos, que bebem sangue e se regozijam com as desgraças que podem provocar (Stephen King perto deles é um pobre inocente).
É necessário entender que no sincretismo afro-católico (imposto num processo de aculturação dos negros pelos padres católicos) os Orixás foram associados a Santos Católicos, inclusive Exu (Bará), que é representado por Santo Antônio. Mas, porquê este Orixá, irmão de Ogum - conforme a tradição africana, animado, gozador, alegre, extrovertido, sincero e sobretudo amigo, foi comparado ao Diabo das profundezas dos infernos?
Esta história tem origem há 6.000 anos, na Mesopotâmia.
Na Mesopotâmia os males da vida que não constituíssem catástrofes naturais eram atribuídos aos Demônios (até hoje essa crença permanece...).
Os Sacerdotes , para combater as forças do mal, tinham que conhecer o nome dos Demônios e faziam enormes listas quase intermináveis. O Demônio mau era conhecido genericamente como UTUKKU . O grupo de sete Demônios maus é com frequência encontrado em encantamentos antigos. Se dividiam em machos e fêmeas. Tinham a forma de meio-humano e meio-animal: Cabeça e tronco de homem ou mulher, cintura e pernas de cabra e garras nas mãos. Tinham sede de sangue, de preferência humano, mas, aceitavam de outros animais. Os Demônios frequentavam os túmulos, caminhos (encruzas), lugares ermos e desertos, especialmente à noite.
Nem todos eram maus, haviam os Demônios bons que eram evocados para combater os maus. Demônios benignos eram representados como Gênios Guardiões, em número de sete, que guardavam as porteiras, portas dos templos, cemitérios, encruzas, casas e palácios.
A Demonologia Mesopotâmica influenciou diversos povos: Hebreus, Gregos, Romanos, Cristãos e outros. Sobrevive até hoje nos rituais Satânicos espalhados pelo mundo.
No Brasil, no período colonial, os negros africanos dançavam e, em transe, assustavam os brancos que se afastavam ou agrediam os negros escravos dizendo que eles estavam possuídos por Demônios.
Com o passar do tempo, os brancos tomaram conhecimento dos sacrifícios que os negros ofereciam aos Exus, e isto reafirmou a idéia de que eles estavam "possuídos por demônios".
As cores ritualística de Exu (vermelho e preto), também reafirmaram os medos e a fascinação que rondavam as pessoas mais sensíveis.
Assim, o que aconteceu foi uma associação indevida, maldosa, dos demônios Judaico-Cristãos aos Exus da Quimbanda, e ainda ao Orixá Exu (Bará), simplesmente por similaridades em relação a cores, moradas, manifestação de personalidade, etc. Com o tempo, isto foi caindo no gosto popular, na psique de pessoas mentalmente e espiritualmente perturbadas e começou a se construir "a visão", de que Exu é o Demônio.
Muitos médiuns despreparados e anímicos, ou perturbados mental e espiritualmente, recebiam Exus que diziam-se Demônios. Nessa onda de terror, ou de horror, alguns autores Umbandistas do passado, por falta de conhecimento ou por ignorância, fizeram tabelas de "nomes cabalísticos dos diabos" associando esses nomes aos Exus de Quimbanda.
Comerciantes inescrupulosos ou, simplesmente, ignorantes, criaram imagens de Exus com aparência de Demônios, cada vez mais medonhos e aterradores (chifres, rabos, partes de animais... ) construindo no imaginário de muitos médiuns e da população brasileira o estereótipo de Exu = Diabo, Exu = Satanás, Exu = Coisa Ruim.
Hoje em dia, as casas Africanistas (centros, terreiros, tendas...) estão abolindo essas imagens e condenando o seu uso devido aos estudos, pelo conhecimento e pela orientação dos reais Exus. Porém, o mal foi feito, o estereótipo atingiu a psique das mentes mais fracas e, muitas vezes, vemos em certos canais de televisão, a invocação dessas aberrações e a indevida associação aos Exus de Quimbanda. O que podemos dizer é que quem invoca a Deus, Deus o tem. Quem invoca o Diabo, o Diabo o tem.
Algumas correntes religiosas estão alimentando na população a visão de que a culpa para as mazelas de suas vidas são os Exus (ou, como dizem, o Diabo), os quais se manifestam babando, com as mãos tortas, grunhindo, gritando "vou levar! vou levar...!!!", todos tortos e formatados dentro de um psique moldado e caricato.
Essas religiões estão alimentando o medo, a ignorância, o preconceito, a discriminação e a ilusão de que a dor alheia é aplicada pelas religiões africanas e pelos seus Guias, principalmente os Exus.
Exu combate o mal. É um executor da Lei, é justo, tem tranquilidade em suas decisões e em seus trabalhos. Ele não é, e nunca foi o Diabo... Nem tampouco Anjo.

Post baseado no texto de Pai Guilherme d'Bará, originalmente publicado no Blog Abassá Babá Oke Bará Lanã