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quarta-feira, 2 de agosto de 2023

A Umbanda em Guarapari - A História de Leonor Gomes

 

A Tenda Espírita Pai João foi inaugurada no final da década de 1960, na conhecida Rua da Marinha, no bairro Itapebussu. Com uma estrutura semelhante ao terreiro conduzido pela Mãe Maria José, a tenda era ainda maior em largura e comprimento. Devido ao número de médiuns que abrigou e às grandes Giras festivas realizadas durante o tempo em que esteve aberto tornou-se tão famoso quanto o Templo Espírita Caboclo Pena Verde inaugurado pela professora Maria José. Era o terreiro construído pelas mãos de Placedino Marques, marido de Leonor Maria Gomes.
Leonor teve uma trajetória parecida com a de Maria José, o que explica a empatia que havia entre as duas amigas de infância. Órfã ainda na adolescência abraçou para si a tarefa de cuidar das quatro irmãs mais novas e de manter o equilíbrio emocional de outros três irmãos. Nascida em Anchieta, no Espírito Santo, chegou à cidade vizinha Guarapari e estabeleceu-se em casa de um dos irmãos que já estava casado levando consigo uma de suas irmãs. Mas, a estadia demorou pouco tempo. Sua cunhada era dona de um temperamento forte e por vezes aconteciam acirradas discussões domésticas. Numa dessas brigas, Leonor e a irmã Maria da Penha foram expulsas pela cunhada e tiveram suas roupas jogadas no meio da rua. Leonor foi abrigada pela então professora do colégio Guarapari, Maria José.
Durante o tempo em que esteve morando com a professora, Leonor aprendeu a costurar e conheceu Placedino Marques, pedreiro muito conhecido na cidade, com quem se casou mais tarde. Ao lado do marido, Leonor ergueu na região central da cidade uma pensão que recebia os turistas que passaram a freqüentar o município a partir do período de expansão da cidade na década de 50. Gentes de todas as partes passavam os verões em Guarapari, famosa no país pela propriedade curativa das areias monazíticas da Praia da Areia Preta. Da pensão, a anchietense assegurava o sustento para si e para as irmãs e sobrinhos que ajudou a criar.
Leonor fora criada na tradição católica da família anchietense, mas era muito curiosa acerca da vida além corpo. Quando adolescente, participava de eucaristias e procissões católicas. Numa dessas ocasiões, interpretou a Virgem Maria na procissão do dia de Nossa Senhora da Conceição. Entretanto, a educação religiosa recebida na infância e na adolescência não impediu a jovem de buscar respostas sobre a vida espiritual. Conforme relatos de alguns conterrâneos, Leonor participava de verdadeiras excursões em direção ao bairro Lameirão ao lado de outros curiosos, dentre eles a Anna Castro Martins, telefonista de Guarapari que iria desempenhar grande trabalho espiritual e caritativo em nome da Umbanda. No bairro Lameirão morava o homem conhecido pela alcunha de Sr. Pimentel o qual realizava sessões espirituais particulares e muitos moradores de Guarapari iam até sua casa para pedir orientações, benzimentos e remédios curativos. Foi por intermédio da curiosidade de Leonor que a amiga Maria José foi curada de um mal súbito que lhe acometeu quando ainda era professora.
Preocupada com a voz de Maria José que subitamente havia faltado, Leonor a aconselhou a sair em visita a um famoso médium curador que estava na capital Vitória. E foi também graças ao interesse pelas coisas do Espírito que Leonor conheceu em sua pensão a mulher que mais tarde seria de crucial importância para sua mediunidade e para o desenvolvimento da religião de Umbanda em Guarapari.
A cura e o retorno da voz acenderam na professora Maria José o interesse pelo ritual mediúnico que ela chamava de espiritismo. A partir do restabelecimento da saúde, Maria José passou a ceder a cozinha de sua residência para que Anna Castro pudesse incorporar o Caboclo Sucupira, o qual já era conhecido entre os moradores de Guarapari.
Em 1962, a mulher carioca conhecida como Dona Liquinha, ou Maria Angélica Brandão, hospedou-se na pensão de Leonor e ambas iniciaram uma forte amizade desde então. Quando visitava Guarapari, no verão, Dona Liquinha saía do Rio de Janeiro trazendo as filhas e todas ficavam hospedadas na pensão de Leonor. Dona Liquinha não escondia sua orientação religiosa e logo Leonor ficou sabendo que ela era Chefe de Terreiro. A novidade encheu os olhos de Leonor de uma alegria intensa. Essa alegria levou Leonor a apresentar Dona Liquinha para Maria José. Desse encontro, revelou-se a missão de Maria José ao mundo. Cabia a ela a tarefa de iniciar o trabalho caritativo de Umbanda e a de levantar um altar em sua propriedade. Em 1964, Maria José deu início ao terreiro de Umbanda do Caboclo Pena Verde, tendo como médium em desenvolvimento a amiga Leonor. Placedino, marido de Leonor, ajudou a construir também o Templo Pena Verde inaugurado em 1967.
Leonor e seu marido integraram a corrente espiritual de Maria José durante certo tempo, até que o Pai João, entidade que se manifestava através da mediunidade de Dona Liquinha, outorgou-lhe a incumbência de erguer outro templo na cidade. Já nessa época, Leonor incorporava o Caboclo Sereno, Espírito dócil, porém rigoroso quanto à seriedade dos trabalhos umbandistas. A missão de Leonor não foi bem interpretada por alguns irmãos de fé. Foi atribuída a ela e ao marido a pecha de invejosos e dissidentes.
Anna Castro havia deixado a erraticidade dos trabalhos e, nesse tempo, o Centro Espírita Santo Antônio de Pádua já estava estabelecido na Rua Getúlio Vargas, no centro da cidade. O terreiro comandado por Maria José também já era conhecido de todos. Mas, a expansão da religião de Umbanda em Guarapari estava apenas começando. Essa expansão era vista com bons olhos pela Espiritualidade Maior.
O terreiro deveria ficar parecido com a Tenda Espírita São João Batista que ela comandava à rua Patagônia, nº 42, no bairro da Penha, Rio de Janeiro.
Em junho de 1968, em uma bela cerimônia que ficou gravada na memória de inúmeros simpatizantes e seguidores da religião de Umbanda, a Tenda Espírita Pai João foi inaugurada sob as ordens e direção do Pai João e da Velha Rosa, Entidades incorporantes da Mãe de Santo Liquinha. É enorme a quantidade de pessoas que guarda da mente e no coração a festa de grande pompa que teve lugar na Rua da Marinha quando da inauguração do terreiro de Umbanda.
A Tenda Espírita Pai João era deveras muito semelhante ao erguido por Maria José no bairro Ipiranga. A semelhança era tanta que dava a impressão de que ambos pertenciam à mesma pessoa. A diferença, porém estava no tamanho e na decoração do altar. A Tenda Pai João era maior e a parede por detrás do altar possuía uma pintura que lembrava o firmamento. Havia também sob o altar uma pequena queda d’água que descia ininterrupta formando uma cachoeira em miniatura. A cachoeirinha formava um lago decorado com plantas vivas e pedras naturais. A Tenda também possuía maior espaço para a assistência que ficava sentada logo atrás dos tablados construídos para os ogãs de toque. A cantina que ficava na entrada do terreiro tinha a aparência de uma antiga casa de madeira. Foi decorada para se parecer com uma pequena cabana do período colonial. Ganhou o título de Cabana de Pai Tomé. A Cabana do Pai Tomé era, ao mesmo tempo, cantina e cozinha especial para a preparação dos alimentos ritualísticos.
Uma grande parte dos médiuns que freqüentavam o Templo Pena Verde mudou-se para a Tenda de Pai João e, pouco tempo depois da inauguração, Leonor foi chamada pela Mãe Liquinha para passar uma longa temporada de vários meses no Rio de Janeiro. Mal sabia ela que algo muito importante estava sendo preparado pela Espiritualidade Maior.
Leonor hospedou-se em casa de Dona Liquinha e recebeu muitas instruções acerca do terreiro recém inaugurado e do ritual que deveria ser seguido pelos médiuns da Tenda. Também recebeu orientações sobre as oferendas e obrigações aos Orixás. Logo após o retorno do Rio de Janeiro, entretanto, a primeira de muitas provações pelas quais Leonor passaria teve início a partir de alguns médiuns da corrente espiritual que, descontentes com o espírito de liderança da médium, enredaram um boato sobre as suas reais intenções. Achavam todos que Leonor queria mandar no terreiro e sobrepujar a autoridade de Mãe Liquinha. Nesse ínterim, o Pai João determinou que Mãe Liquinha viajasse o mais rápido possível até Guarapari e que todos os médiuns se encontrassem no terreiro para uma reunião extraordinária.
No dia marcado para a reunião, o Pai João desceu diante dos médiuns e ordenou que fossem colocados alguns bancos no meio do Congá e que todos se assentassem. O Pai João revelou então que a partir daquela data a médium Leonor iria conduzir os trabalhos da Tenda. Depois de uma longa explanação e exortação acerca do ato traidor de determinados filhos da corrente, o Pai João dirigiu-se a cada médium individualmente. Com autoridade, a Entidade dizia a cada um que se retirasse do Congá e se assentasse nos bancos destinados aos consulentes. Por fim, apenas Leonor, Placedino e outra médium permaneceram nos bancos posicionados dentro do Congá. Pai João então falou, diante dos olhos estupefatos de Leonor, que daquele dia em diante todos os que estavam sentados do lado de fora do Congá não pertenciam mais ao quadro mediúnico da Tenda de Pai João e que deveriam se retirar do terreiro imediatamente.
Assustada, Leonor perguntou ao Guia como seria a Tenda a partir daquela data. Pai João tranqüilizou a médium e disse que não se preocupasse, pois dentro em breve o terreiro estaria novamente repleto de médiuns confiáveis e cheios de amor no coração. E assim, Leonor passou a ser a Dirigente da Tenda Espírita Pai João, tendo à sua mão direita o marido Placedino, encarregado desde então a ser o zelador do terreiro e Cambone do Caboclo Sereno, agora Guia-Chefe da Tenda.
Com o crescimento econômico da cidade, muitos hotéis foram construídos e Mãe Leonor decidiu que deveria abandonar a pensão e transformá-la em lojas comerciais. Assim, a pensão que abrigara muitos turistas deu lugar a diversas lojas. Placedino e Mãe Leonor levantaram então o Restaurante Lagostão que se tornou conhecido e bastante freqüentado por turistas de várias partes do País.
Mãe Leonor dividia seu tempo entre o restaurante e o terreiro de Umbanda, cujas festas de Cosme e Damião, São Jorge, São João e São Sebastião levavam muitos simpatizantes à Tenda. Também ficaram famosas as jangadas feitas de pita que levavam barquinhos em tamanho natural repletos de flores nas oferendas à Iemanjá.
As oferendas para Iemanjá aconteciam na Praia da Areia Preta, nas festas de fim de ano à beira mar. Entre 1970 e 1980 os festejos e as cerimônias dedicadas a Iemanjá lotavam toda a orla do Centro de Guarapari. Muitas pessoas desciam até à Praia da Areia Preta para ver os umbandistas cantando pontos, curimbando ao som dos atabaques e recebendo seus Guias ao ar livre, diante de uma imensa platéia de curiosos e simpatizantes da religião.
Foi a partir de 1980 que o calvário de Mãe Leonor começou de fato a tomar proporções inigualáveis. Apesar de tão querida por todos os que freqüentavam a Tenda de Pai João e de ser guiada pelo amável Caboclo Sereno, Mãe Leonor enfrentou e atravessou quase que sozinha uma imensa provação. Nessa época, sua mentora e Mãe de Santo, Dona Liquinha já havia falecido. Placedino, o maior apoio de Mãe Leonor, entrou num estado de decadência espiritual que acabou por refletir na vida emocional e financeira da esposa.
Trabalhando no serviço público, Placedino envolveu-se com diversos alcoólatras, os quais por sua vez influenciaram negativamente o cambone do Caboclo Sereno. A queda começou com as faltas freqüentes às Giras que aconteciam aos sábados. Passou a ser rotina a abertura de trabalhos sem a presença do braço direito de Mãe Leonor.
A situação piorou quando a bebedeira de Placedino passou a ser diária. Todos os dias, Placedino chegava em casa transformado pelo álcool, na hora das refeições ou no meio da tarde. As brigas e as discussões acaloradas eram constantes, ao ponto de chegar à agressão física contra a própria Mãe Leonor. Certa vez, ela recebeu sobre o seu corpo um prato cheio de feijão quente arremessado pelo marido furioso. Sofrendo com toda aquela situação, Mãe Leonor viu a sua vida de tantas lutas entrar num turbilhão de acontecimentos ruins. O choro, antes das sessões de Umbanda, era inevitável. De vez em quando, o terreiro ficava de portas fechadas nos dias de Gira. Mãe Leonor, envolvida com as confusões provocadas pelo marido, não encontrava forças para sequer sair de casa, no Centro da cidade, e dirigir-se ao bairro onde a Tenda estava estabelecida. A dor aumentou quando Mãe Leonor descobriu que o marido a traía, o que poderia explicar o motivo de tantas brigas e tantas palavras de ofensa proferidas pelo homem bêbado. Foi a partir desse constante e diário sofrimento que Mãe Leonor tomou a triste decisão de fechar a Tenda de Pai João por tempo indeterminado.
Depois disso, o caos tomou conta da vida de Mãe Leonor e sua família. As brigas saíram do limite doméstico e atingiram o comércio mantido pelo casal. Alcoolizado, Placedino invadia o restaurante e expulsava os fregueses sem que eles pagassem o consumido. O restaurante, outrora tão bem freqüentado, agora só acumulava dívidas. A única solução era vender o estabelecimento. Teve início também uma trajetória de venda das lojas por preços muito abaixo do mercado imobiliário, o que trouxe para o casal grande prejuízo e ruína. E, assim foi feito com todos os imóveis do casal Leonor e Placedino. Lojas, casas e terrenos conseguidos depois de tanto suor e trabalho foram desaparecendo das vistas de todos que, assombrados, não entendiam o porquê de tamanha decadência.

O Terreiro de Umbanda, o último bem e, certamente, o mais precioso de todos ainda resistia à tempestade que se abateu sobre a Mãe de Santo Leonor Gomes. Porém, em 1986, a Tenda Espírita Pai João foi vendida. O terreiro de Umbanda da Rua da Marinha encerrou definitivamente suas portas para transformar-se em residência comum. Mobília, material ritualístico, imagens e demais utensílios usados nas Giras foram jogados ao mar, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro.
Divorciada e vivendo modestamente, Mãe Leonor não se desesperou com a situação. Sofreu resignada e em silêncio todas as adversidades que lhe sobrevieram. Apesar de tão grande desgosto, procurava manter vivo um sorriso nos lábios. Sua integridade não sofreu abalo. Sua visão prática da vida a mantinha sóbria e totalmente lúcida. Mesmo depois da morte súbita do ex-marido, Mãe Leonor, ou Nonô – como era chamada pelos amigos e parentes -, permanecia com a cabeça levantada e não entregava os pontos.
Nascida em 18 de dezembro de 1928, Leonor Maria Gomes Marques gozou os remanescentes dias de sua vida ao lado dos netos e bisnetos, seus últimos e maiores bens que possuía na terra. Os médicos diagnosticaram, após vários exames, que Nonô sofria de “coração grande”, ou na linguagem científica, cardiomegalia, que causa o crescimento do tamanho do coração em proporções anormais. A descoberta do problema provocou sua internação repentina para uma possível cirurgia.
Internada num hospital de Cachoeiro do Itapemirim, cidade natal de Roberto Carlos, o cantor por quem nutria a maior admiração, Nonô pediu que irmãs e sobrinhos fossem visitá-la antes da cirurgia a que ia se submeter. Sorrindo, como sempre, abraçou a todos os que a visitaram, dando palavras de conforto e carinho. Entretanto, o Enorme Coração de Mãe Nonô não resistiu à cirurgia e, finalmente, no dia 14de julho de 2007, faleceu aos setenta e oito anos de idade, deixando saudades e pesares de parentes, amigos e filhos de terreiro que tiveram o privilégio e a honra de conviverem com tão doce criatura.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

História da Umbanda - Parte 3 - Alabanda... Aumbanda... Umbanda


Após os acontecimentos ocorridos na sessão espírita para onde tinha sido levado, uma grande quantidade de pessoas foi até à casa do jovem Zélio de Moraes, na rua Floriano Peixoto, em São Gonçalo – RJ, próximo das 20:00 horas. Compareceram membros da federação espírita, parentes, amigos, vizinhos e uma multidão de desconhecidos e curiosos a fim de confirmar se de fato a profecia haveria de se cumprir tal como tinha sido proferida: "Amanhã na casa deste meu aparelho será inaugurado uma tenda espírita com o nome de Nossa Senhora da Piedade". Pontualmente as 20:00 horas o Caboclo das Sete Encruzilhadas incorporou e com as palavras abaixo iniciou seu culto:

“Vim para fundar a Umbanda no Brasil. Aqui inicia-se um novo culto em que os espíritos de pretos africanos e os índios nativos de nossa terra, poderão trabalhar em benefício dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a cor, raça, credo ou posição social. A pratica da caridade no sentido do amor fraterno, será a característica principal deste culto”.

A casa de trabalhos espirituais inaugurada em 1908 recebeu o nome de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Maria acolhe o Filho nos braços, também seriam acolhidos, como filhos, todos os que necessitassem de ajuda ou de conforto.

Alguns anos mais tarde, já na década de 70, Zélio de Moraes concedeu uma entrevista a Jota Alves de Oliveira, consagrado autor Umbandista e Kardecista, colunista do jornal "O DIA" e autor do livro O Evangelho na Umbanda, cujas palavras ficaram registradas em fitas cassetes. As fitas postadas inicialmente por Alex de Oxossi no blog Registros de Umbanda,  foram cedidas pela Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade à Mãe Maria, da Casa Branca de Oxalá. Algumas revelações trazidas à luz pelo próprio Zélio devem ser levadas em consideração:

Zélio revelou que o nome original da religião foi Alabanda, onde Alá é uma palavra árabe que significa Deus e Banda, do lado de. Logo, Alabanda significaria Do lado de Deus.  De acordo com Zélio, o nome foi dado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, como uma homenagem ao Orixá Mallet, que era malaio e muçulmano. Um ano depois, em 1909, o Caboclo das Sete Encruzilhadas mudou o nome da religião de Alabanda para Aumbanda, substituindo a palavra árabe Alá (Deus) para a palavra grega que possui o mesmo significado (Aum).

Embora o nome dado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas tenha sido Aumbanda, o que se firmou e acabou sendo divulgado foi Umbanda. Segundo a explicação do Caboclo das Sete Encruzilhadas, não há nenhuma ligação do nome da religião com o sânscrito ou com o quimbundo, mas apenas com o árabe e com o grego.


Após trabalhar fazendo previsões, passe e doutrina, o Caboclo das Sete Encruzilhadas informou que devia se retirar, pois outra entidade precisava se manifestar. Após a “subida” do Caboclo incorporou uma entidade que, saindo da mesa, se dirigiu a um canto da sala onde permaneceu agachado. Sendo questionado o porquê de não ficar na mesa respondeu:
- Nego num senta não meu sinhô, nego fica aqui mesmo. Isso é coisa de sinhô branco e nego deve arespeitá.
Após insistência, ainda completou:
- Num carece preocupá não. Nego fica no toco que é lugar de nego.
E assim continuou dizendo outras coisas mostrando a simplicidade, humildade e mansidão daquele que trazendo o estereótipo do preto-velho se fez identificar como Pai Antônio. Logo cativou a todos com seu jeito.
Ainda lhe perguntaram se ele não aceitava nenhum agrado, ao que respondeu:
- Minha cachimba. Nego qué o pito que deixou no toco. Manda moleque buscá.
Todos ficaram perplexos, estavam presenciando a solicitação do primeiro elemento material de trabalho dentro da Umbanda.

Na semana seguinte (provavelmente no dia 23 de novembro – segunda-feira), todos trouxeram cachimbos que sobraram diante da necessidade de apenas um para Pai Antônio. Assim o cachimbo foi instituído na linha de pretos-velhos, sendo também ele a primeira entidade a pedir uma guia (colar) de trabalho.

Nos dias seguintes, verdadeira romaria se formou na Rua Floriano Peixoto, n.º 30, em Neves. Enfermos, cegos, paralíticos, vinham em busca de cura e ali encontravam, em nome de Jesus. Médiuns (cujas manifestações haviam sido consideradas loucuras) deixaram os sanatórios e deram provas de suas qualidades excepcionais.  

O pai de Zélio freqüentemente era abordado por pessoas que queriam saber como ele aceitava tudo isso que vinha acontecendo em sua residência, sua resposta era sempre a mesma em tom de brincadeira. Respondia que preferia um filho médium ao lugar de um filho louco.
Foi um trabalho árduo e incessante para o esclarecimento, difusão e sedimentação da religião de Umbanda.

Fontes: blog  Povo de Aruanda e Registros de Umbanda

sexta-feira, 29 de julho de 2022

História da Umbanda - Parte 1 - Introdução

A História da Umbanda Sagrada não pode ser desvinculada da figura memorável do médium Zélio Fernandino de Moraes, carioca da cidade de Niterói - Rio de Janeiro. O primeiro ritual; a primeira menção do termo "umbanda" (tão propalado e tão analisado) e a primeira tenda verdadeiramente instituída, tiveram início a partir do assustado rapaz de dezessete anos de idade, nos idos de 1908.
Várias foram as tentativas para tirar o mérito do jovem Zélio.Várias foram as hipóteses levantadas para dar uma nova gênese para a Religião que estabilizou-se como um autêntico culto brasileiro. Idealizaram, ao longo dos anos, diversas teorias para explicar a origem de algo tão simples e tão espetacular ao mesmo tempo como é a Religião nascida no distrito de Neves, em Niterói.
Mirabolantes idéias surgiram e foram se espalhando pelas cidades brasileiras ao mesmo tempo em que a Umbanda crescia e se estabelecia como a mais nova crença espiritualista do Brasil. Livros e mais livros foram escritos com esse propósito. Como citam alguns autores, quiseram "enbranquecer" a Umbanda; quiseram africanizá-la, tentaram milenizá-la e procuraram explicá-la do ponto de vista esotérico (modismo das décadas de 70 e 80) e do ponto de vista cabalístico (a partir da década de 90), tal é o fascínio que a menininha brasileira desperta nos estudiosos.
Outros, de forma preconceituosa, jogaram pedras e espinhos no caminho da Umbanda. Quiseram enlamear sua branca bandeira da caridade, acusando-a de feitiçaria, bruxaria, curandeirismo, demonismo, baixo-espiritismo e outros termos pejorativos, cheios de discriminação.
A Umbanda foi ultrajada, mal-falada, incompreendida e achincalhada, mas fixou suas bases nos corações de mulheres e homens necessitados, conquistou o amor de verdadeiros e corajosos baluartes da Religião, ganhou a confiança de indivíduos cheios de tabus religiosos e dogmas castradores, avançou em meio a uma sociedade preconceituosa e intolerante e se firmou no cenário religioso brasileiro como a Única Religião originariamente brasileira.
Controvérsias à parte, a verdade é que a Religião de Umbanda tornou-se um verdadeiro pronto-socorro para pessoas aflitas e desenganadas. Através das mansas palavras dos Pretos Velhos, espíritos cujas força e paciência são admiráveis, e das receitas miraculosas de banhos e garrafadas à base de ervas ensinadas pelos Caboclos, muitos encontraram a salvação em tendas e terreiros erguidos em fundos de quintal, em pequenos Congás improvisados a partir de aposentos domésticos ou até mesmo debaixo de arvoredos ao ar livre. Criaturas humanas consideradas loucas ou esquizofrênicas descobriram o equilíbrio e a inevitável condição de médiuns nas reuniões umbandistas chamadas Giras.


Graças aos Pretos Velhos e à sua linguagem característica carregada de palavras utilizadas no período colonial brasileiro e aos seus maneirismos na utilização de cachimbos, pembas, velas e rosários, a Umbanda recebeu a fama de ser uma religião africana. Quiseram relegar os amados espíritos conhecidos como Pai Antônio, Pai Joaquim e Maria Conga ao gueto, considerando-os espíritos atrasados e cheios de vícios materiais. Devido aos banhos, remédios, charutos e brados de Caboclos conhecidos pelos nomes de Sete Flechas, Jurema e Pena Branca, lançaram o veredito de que a Umbanda era apenas uma das muitas ramificações da pajelança e dos extintos cultos indígenas brasileiros. Alguns quiseram até mesmo torná-la um pouco mais aceitável, buscando nos antigos povos Maias, Incas e Astecas, a origem milenar dos espíritos que se apresentavam como simples caboclos.
Os rituais de mesa, a utilização do Evangelho Segundo o Espiritismo, as preces e a propagação do nome de Jesus dentro dos terreiros foram os motivos para que muitos homens se levantassem do silêncio e do anonimato e se arvorassem como profundos entendidos das coisas espirituais e classificassem a Religião de Umbanda como uma forma deturpada do espiritismo de Allan Kardec. Levantaram-se armados com livros e força policial para fechar as casas umbandistas e aprisionar os médiuns, homens e mulheres simples que apenas queriam ajudar o próximo. O amor e a compreensão deram lugar ao ódio e à intolerância. "A caridade, ensinamento primordial de Jesus, não podia ser realizada por pessoas leigas e atrasadas em sua evolução intelectual".

O sincretismo com outras crenças, fato extremamente necessário à expansão da Umbanda, causou comichões em vários teólogos e defensores da fictícia pureza das doutrinas já estabelecidas. A presença de determinadas imagens nos altares de Umbanda, algumas rezas e a utilização de objetos oriundos de ritos católicos despertou o furor de alguns beatos que passaram a acusar os umbandistas de hereges e os chefes de terreiro de falsos profetas da idade contemporânea. Outros, mais enfurecidos, iniciaram uma campanha silenciosa para descrédito da veracidade da existência de personagens históricos como São Jorge e os Santos Cosme e Damião, justamente pelo fato de serem honrados nos Pegis de Umbanda.
O crescente número de charlatães e mistificadores no seio da Umbanda, fato inerente a todas as religiões do mundo, provocou as autoridades que encontraram motivos de sobra para invadir casas particulares e terreiros. Já a vaidosa sabedoria de uns poucos homens que se denominavam mestres e doutores, fez com que surgissem diversas facções dentro da novel religiao, transformando associações e federações em quartéis generais fortemente preparadas para uma batalha de interesses. Surgiram então, os vários órgãos, conselhos e outros agrupamentos rivais entre si. As diferenças de opiniões partiram dos centros vizinhos e ganharam os Estados brasileiros.
Mas, em meio a esse turbilhão de fatos negativos, a Umbanda conseguiu sobreviver e não sucumbiu diante das intempéries. A forte e vigorosa Umbanda Sagrada atravessou os escombros e atingiu o outro lado da situação. Avançou, ao longo dos anos, a passos lentos, firmes e cheios da autoridade dos Espíritos Mentores de Aruanda. Apesar dos ventos fortes contrários, a bandeira da Umbanda prosseguiu empunhada pelos reais defensores da Caridade e completou Cem Anos de existência no Plano Material. Humilde como uma pomba, mas Forte como um Leão, nao se deixou abater.

Foto do Zélio: Retirado do Site Registros de Umbanda, to texto de Fernando Guimarães
http://registrosdeumbanda.wordpress.com/2009/12/13/o-vereador-zelio-fernandino-de-moraes/

História da Umbanda - Parte 2 - A Anunciação

Qualquer iniciativa de explicação da origem da Umbanda deve levar em conta a importante parcela de colaboração que Zélio Fernandino de Moraes deu para o surgimento do culto que durante muitos anos foi relegado à marginalidade. O novo culto surgido no âmbito doméstico do carioca Zélio não trazia qualquer alusão a práticas criminosas em sua liturgia que contribuísse para uma atitude tão radical por parte de algumas autoridades políticas e religiosas desde então. A Umbanda deu os primeiros passos baseada no ritual que trazia uma liturgia simples, recheada de cânticos, rezas e orações. Grande parte das orações já era conhecida do povo cristão do início do século XX. Os símbolos e os ícones religiosos do primeiro altar levantado em nome da Umbanda pertenciam à crença popular da época, demonstrando, portanto, que o ritual não se baseava numa cultura desconhecida capaz de causar o espanto de ninguém. A mediunidade, mola propulsora da nova religião, era algo já explorado por benzedeiras e rezadores e estudado pelas primeiras congregações espíritas daqueles tempos. As manifestações, contudo, se limitavam a reuniões fechadas ao público comum. A explicação para tanta aversão está na novidade da crença e no preconceito em relação ao “diferente”, já que muitos têm o hábito de rechaçar, por medo ou por falta de conhecimento, aquilo que é novo e estranho.

A história do surgimento da Umbanda a partir da manifestação mediúnica de Zélio de Moraes difundida por todo o território brasileiro merece consideração e estudo profundo.

Ela tem fundamento e não teve início nas citações poéticas de romancistas e contadores de estórias. A que história que estará nas páginas seguintes foi baseada em depoimentos do próprio Zélio e de parentes e amigos que viveram ou conheceram o carioca que aos dezessete anos iniciou um grandioso trabalho em favor dos Espíritos necessitados. Também serão consideradas as palavras de vários estudiosos e pesquisadores que, movidos pela constante busca da verdade, escreveram sobre a Umbanda e o seu início a partir de 1908.
É fato, portanto, que verdadeiramente existiu um homem vitimado por uma paralisia estranha e por acessos semelhantes aos sintomas epilépticos ou, como quiserem alguns, parecidos com os de uma possessão demoníaca. Na verdade, as coisas que sobrevieram ao Zélio nada tinham de macabro, ou eram obra do demônio, pois compreendiam a exteriorização da mediunidade que o moço possuía. Esse afloramento peculiar causou a propagação do novo culto mais tarde.
Zélio Fernandino de Moraes nasceu no dia 10 de abril de 1891 no antigo Estado da Guanabara, atual Rio de Janeiro. Cresceu e viveu, desde a infância até a juventude, sob os cuidados de seus pais em São Gonçalo, município vizinho de Niterói, mais precisamente no bairro das Neves.
Leal de Souza, jornalista que conheceu de perto a família Moraes, relatou no livro “O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda” (obra publicada em 1933) que Zélio pertencia a uma família humilde cuja residência era “uma casa pobre de um bairro paupérrimo” (SOUZA, 1933, pág. 66) que ficava na Rua Floriano Peixoto, nº 30.
Filho de Dona Leonor de Moraes e Joaquim Fernandino Costa, militar reformado da Marinha, e tendo Zilka como única irmã, Zélio concluiu, aos dezessete anos de idade, o curso de propedêutica – espécie de ensino preparatório – e fazia planos para seguir a carreira militar. Seu desejo era ingressar na escola Naval, tomando como exemplo a figura do pai.
" Na minha família, todos são da marinha: almirantes, comandantes, um capitão-de- mar-e-guerra” – declarou certa vez, aos 82 anos de idade.
Tinha Zélio ainda a idade de 17 anos quando misteriosos acontecimentos tomaram vulto em sua vida.Franzino e de saúde frágil, Zélio começou a ter ataques estranhos na escola e no ambiente familiar à vista de todos e em momentos inesperados. De vez em quando, o rapaz era apanhado falando manso e suave e com postura semelhante a um homem velho, cujas palavras tinham um sotaque diferente, como se o Zélio fosse de outra região brasileira. Noutras vezes, sua voz assumia um tom enérgico e seu corpo apresentava uma postura vigorosa com um semblante sério e pesado. As coisas que Zélio falava também causavam espanto e medo, pois eram palavras desconexas, linguajar confuso e mensagens aparentemente sem sentido.
Tais “ataques” preocuparam toda a família que percebeu o perigo que aquilo poderia trazer à carreira do jovem, pois muitos parentes acreditavam que o rapaz estava ficando louco. A freqüência com que Zélio tinha as manifestações levou os pais a procurarem socorro junto a um tio dele, o irmão de Leonor.
Dr. Epaminondas de Moraes, tio de Zélio, era médico psiquiatra e dirigia o Hospício de Vargem Grande quando recebeu a visita dos pais assustados do rapaz. Dr. Epaminondas estudou o caso, pesquisou a literatura médica à época e observou o fato durante vários dias. Porém, nada encontrou que pudesse contribuir para algum diagnóstico. Nenhuma doença mental possuía os sintomas que ajudassem a esclarecer o que vinha acontecendo com o sobrinho. Vencido, o médico sugeriu que encaminhassem o Zélio a uma sessão de exorcismo e o colocassem aos cuidados de um padre, já que ele podia estar sendo vítima de demônios.
Zélio foi conduzido a outro parente, um padre católico, a quem caberia o trabalho de exorcizá-lo e afastar as entidades das trevas. O sacerdote, tio avô de Zélio, aplicou-lhe o ritual de exorcismo e também não obteve êxito.
Dona Leonor de Moraes, mãe de Zélio, levou o rapaz a uma negra benzedeira chamada Cândida que realizava curas. Dona Cândida também era médium e recebia a incorporação de um Espírito o qual se identificava pelo nome de Tio Antônio. A entidade recebeu o Zélio, aplicou-lhe passes e rezas e depois disse categoricamente que na verdade o que o moço tinha era proveniente da mediunidade que estava aflorando e que ele deveria “trabalhar” na caridade. Mas, as manifestações da mediunidade que estava prestes a aflorar com espantosos resultados futuros estavam apenas começando.
No início do ano de 1908, uma estranha paralisia jogou o rapaz sobre a cama e o manteve assim por certo tempo. Preocupados com a saúde do moço, seus pais chamaram médicos que o examinaram e nada conseguiram descobrir. Porém, no dia 15 de novembro do mesmo ano, a enfermidade desapareceu repentinamente sem que deixasse qualquer seqüela. Curiosamente, o próprio Zélio anunciou um dia antes que estaria curado na manhã seguinte:
" Eu estava paralítico, desenganado pelos médicos – disse ele em entrevista a Lilian Ribeiro, para a revista Gira de Umbanda, em 1972. – Certo dia, para surpresa de minha família, sentei-me na cama e disse que no dia seguinte estaria curado. Isso foi a 14 de novembro de 1908.”
Incomodado com a situação do filho e ansioso por resolver o problema que já se arrastava por um bom tempo, Joaquim Costa levou o Zélio a uma casa espírita da cidade de Niterói no dia 15 de novembro de 1908 após ouvir conselhos de amigos (¹). Tal casa foi definida pelo Zélio como sendo a “Federação Espírita de Niterói”.
Apesar de toda a família pertencer à Igreja Católica, o pai de Zélio era adepto do espiritismo à época, conforme relata Leal de Souza. Leal declarou que “o Caboclo das Sete Encruzilhadas... escolheu para seu médium, o filho de um espírita...”. Esta afirmativa foi corroborada anos mais tarde por Zélia de Moraes Cunha, filha de Zélio, em entrevista ao sacerdote umbandista Rivas Neto em 1990.
" O meu avô era espírita – disse ela –, mas espírita kardecista.”
A sessão espírita a que Zélio compareceu no dia 15 era presidida por um homem chamado José de Souza, conhecido pela alcunha de “Zeca”, chefe de um departamento da Marinha chamado Toque-Toque. Zélio foi convidado pelo próprio dirigente a sentar-se à sua direita na mesa.
O moço sentiu-se “deslocado, constrangido, em meio àqueles senhores”, segundo descreveu anos mais tarde. Sem saber o motivo, em dado momento da reunião, disse:
" Falta uma flor nesta mesa. Vou buscá-la!”
O dirigente e os demais participantes da sessão espírita o advertiram de que não podia ausentar-se da sala. Entretanto, “logo em seguida levantou-se, contrariando as normas do culto estabelecido pela instituição... Foi até um jardim apanhou uma rosa branca e colocou-a no centro da mesa onde se realizava o trabalho” (GUIMARÃES, Lucília; GARCIA, Éder Longas e MATA VIRGEM, Sociedade Espiritualista).
Sob o olhar atônito de Joaquim e dos demais membros do grupo espírita, Zélio voltou a sentar-se à mesa e os trabalhos afinal tiveram início.
Alguns Espíritos começaram a se manifestar na reunião e Zélio ficou aborrecido com as atitudes dos médiuns presentes.
" Verifiquei que os espíritos que se apresentavam ao vidente como índios e pretos, eram convidados a se afastar” – relatou Zélio na entrevista.
Nesse instante, Zélio foi tomado por “uma força estranha” que o impeliu a levantar-se novamente.
" Por quê não podem se manifestar esses Espíritos?” – perguntou Zélio.
O rapaz defendeu-os dizendo que “embora de aspecto humilde, eram trabalhadores”. Em declaração à revista “Seleções de Umbanda”, em 1975, Zélio revelou que apenas ouvia a própria voz, pois falava sem saber o que dizia.
A partir daquele momento, um debate se estabeleceu no recinto, pois até mesmo o Zélio recebeu a incorporação de um Espírito que argumentava seguramente com os responsáveis pela mesa. Os integrantes da mesa espírita resolveram, então, doutrinar e afastar o Espírito que falava por intermédio de Zélio.
O Espírito foi visto mediunicamente por um dos “senhores de cabelos grisalhos” que também era médium vidente. O Espírito tinha a aparência de sacerdote cristão, pois trajava roupas clericais, típicas dos jesuítas. Anos mais tarde, na entrevista a Lilian Ribeiro, ele mesmo revelou através da psicofonia que tinha sido em outra encarnação o sacerdote jesuíta Gabriel Malagrida. O Padre Gabriel Malagrida, figura impressionante que depois será abordada nestes escritos, foi queimado na fogueira da Santa Inquisição por prever o terremoto que arrasou Lisboa em 1755.
Zélio explicou que o Espírito não estava de acordo com a federação “kardecista” por não aceitar a manifestação de “caboclos e pretos”. Ora, se no Brasil existiam caboclos, nativos e negros da Costa d’África trazidos pelos exploradores para trabalharem e engrandecerem o País, “como é que uma federação espírita não recebia caboclo, e nem preto?!”, disse o Zélio em entrevista.
A insistência do Espírito em advogar em favor dos negros, índios e mestiços do Brasil deixou o médium vidente um tanto aborrecido.
" O irmão é um padre jesuíta! – afirmou o médium. – Por quê fala dessa maneira e qual é o seu nome?
Independente da vontade de Zélio, respondeu o Espírito profetizando:
" Amanhã na casa deste meu aparelho (o próprio Zélio), na Rua Floriano Peixoto, nº 30, será inaugurado uma tenda espírita com o nome de Nossa Senhora da Piedade, que se chamará Tenda de Umbanda, aonde o preto e o caboclo possam trabalhar, simbolizando a humildade e a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados."
E, o Espírito completou a profecia, afirmando:
" E, se querem um nome, que seja este: sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas."

(¹) A respeito da casa espírita para onde Zélio Fernandino de Moraes fora conduzido, existem controvérsias que carecem de esclarecimentos, uma vez que a veracidade de todos os fatos conhecidos até então entra em conflito a partir do momento em que se torna pública a declaração de Yeda Hungria, Diretora de Divulgação da Federação Espírita de Niterói (atual Instituto Espírita Bezerra de Menezes).
Segundo a Diretora, a Federação não dispunha de sede própria à época dos acontecimentos relativos à visita de Zélio de Moraes, mas tão somente ocupava uma sala no Centro de Niterói, na Rua da Conceição, sendo impossível, portanto, que o Zélio tenha saído rapidamente da sala, buscado uma flor e colocado sobre a mesa de reunião mediúnica. É possível, todavia, que o Zélio tenha sido levado para algum Centro filiado à Federação de Niterói e, devido à repetição da história tradicional, o nome da casa tenha se perdido.
A Ata nº 1 da Federação relata que o presidente à época era o Sr. Eugênio Olímpio de Souza. Também “não consta o nome de nenhum José de Souza entre os membros da diretoria e muito menos na relação de associados. Tampouco consta no referido livro de atas a realização de reunião” no dia 15 de novembro de 1908. É importante ressaltar, entretanto, que por uma estranha coincidência, o sobrenome do presidente da Federação era o mesmo do citado na tradição oral.
Tais informações vieram à tona através do texto “Eis que o Caboclo veio à Terra “anunciar” a Umbanda”, publicado por José Henrique Motta de Oliveira, Mestre em História Comparada - UFRJ/ PPGHC, em História, imagem e narrativas, nº 4, ano 2, abril/2007 – ISSN 1808-9895.



Bibliografia:
SOUZA, Leal. O Espiritismo, Magia e as Sete Linhas de Umbanda. Rio de Janeiro: [s.n], 1933.

GUIMARÃES, Lucília; GARCIA, Éder Longas e MATA VIRGEM, Sociedade Espiritualista. A Origem da Umbanda. Disponível em: http://www2.odn.ne.jp/nec-j/pages/umbanda_orig.htm, Núcleo Espírita Cristão do Japão, último acesso: segunda-feira, 20/04/2009.

OLIVEIRA, José Henrique Motta de. Eis Que o Caboclo Veio à Terra “Anunciar” a Umbanda. Disponível em: http://www.historiaimagem.com.br, História, imagem e narrativas, nº 4, ano 2, abril/2007 – ISSN 1808-9895.

RIBEIRO, Lilia; Lucy e Creuza. Gira da Umbanda, Revista; Ano 1 – Número 1, 1972.

LUA, Brigith. Desenvolvimento Histórico Anterior ao Surgimento da Umbanda. Disponível em Grupo Casa de Umbanda, último acesso: terça-feira, 27/04/2010.

RIVAS, Maria Elise Gabriele Baggio Machado. O Mito de Origem, Uma Revisão do Ethos Umbandista no Discurso Histórico. São Paulo, Abril/2008. Trabalho de conclusão de curso Bacharelado em Teologia Umbandista – FTU Faculdade de Teologia Umbandista.

GUMARÃES, Renato. Registros Umbanda, Blog – Imagens. Último acesso em 13/12/2009.

domingo, 2 de julho de 2017

Desencarna, aos 84 Anos, o Precursor do Espiritismo em Guarapari

Manuel Sampaio Netto, poeta, trovador, escritor e compositor, faleceu na madrugada do dia 02 de julho, às 5h, em um hospital da Grande Vitória, onde estava internado.
Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, no dia 29 de abril de 1933, era filho de Mário Sampaio e de Maria Rocha Sampaio e publicou diversos poemas com temas cristãos em vários jornais e revistas. Em 1988 gravou catorze músicas de sua autoria.
Autor dos livros "Ao Encontro da Luz" e "Ao Encontro da Luz II" e membro da Academia de Letras de Marataízes, foi um dos pioneiros do movimento espírita no Estado do Espírito Santo.
Em 1976 fundou o Grupo Espírita Allan Kardec, o qual desenvolve até hoje atividades espirituais e sociais com vistas à melhoria da vida da população guarapariense.
Inicialmente fundado à rua Lúcio Maia, em Muquiçaba, o GEAK funcionou na residência de Manuel Sampaio e sua esposa Norma Santana Sampaio.
Em seu site na Internet, o GEAK revela que o casal inicialmente ia à Capital Vitória para frequentar as reuniões públicas espíritas e logo percebeu a necessidade de organizar um Grupo, pois a sala de sua casa já não comportava os frequentadores de suas reuniões.
Em 1979 alugaram uma casa no bairro Caminho da Fonte, onde iniciaram as atividades com reuniões públicas doutrinárias às segundas-feiras, evangelização aos sábados e reuniões mediúnicas às sextas-feiras.
Com o crescimento do número de frequentadores, Manuel e Norma viram a necessidade de adquirir um terreno para construir a sede própria do Grupo. Após muitas doações, a sede foi inaugurada finalmente à rua Horácio Santana, no bairro Olaria em 31 de março de 1982.
Baluarte do Espiritismo, em Guarapari, Manuel Sampaio Netto era conhecido por seu espírito conciliador e de grande altruísmo. Deixou diversos poemas, dentre os quais transcrevemos um em sua memória.

Deus e a Natureza

Quando o homem observar à sua volta
Há de ver a presença de seu Deus
Na manhã, ao sol nascer.
E, se continua a busca e se insistir e pensar
Há de encontrá-lo também
Nas águas azuis do mar.
Quem tem olhos há de ver
Verificando, se espanta
Que o bom Deus se manifesta
No crescimento da planta.
Creio muito, com certeza
A vida sem Deus é nada
Ele está em tudo, em todos
E na noite enluarada
Olhe bem a natureza
E veja o trabalho de arte
E sentirás com certeza
Deus está em toda parte.

Autor: Manuel Sampaio Netto



Foto: Folhaonline.es

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Você Sabia...?

Você sabia...

Que a Umbanda é uma religião surgida no Brasil, no início do Século XX, e os primeiros registros históricos informam que isto aconteceu numa sessão espírita?

Que o médium Zélio Fernandino de Moraes recebeu a incorporação de um Espírito que se identificou com o nome de "Caboclo das Sete Encruzilhadas"?

Que o Caboclo das Sete Encruzilhadas, anunciador da Religião de Umbanda, determinou que nos cultos umbandistas não deveria existir o sacrifício de animais e que as vestes ritualísticas dos seus seguidores deveriam ser brancas?

Que dentro da Religião de Umbanda há inúmeras correntes de pensamentos diversificando assim os rituais e as formas de Culto, porém mantendo a essência dos seus fundamentos?

Que no dia 16 de maio de 2012, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei 12.644, a qual institui o Dia Nacional da Umbanda, a ser comemorado todo dia 15 de novembro a partir do ano de 2012?

terça-feira, 12 de junho de 2012

Presidenta Dilma Institui o Dia Nacional da Umbanda

Os umbandistas comemoram seu fortalecimento.
Em apenas dois artigos, no último dia 16 de maio, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei 12.644, que institui o Dia Nacional da Umbanda, a ser comemorado todo dia 15 de novembro a partir do ano de 2012.
O projeto de tornar constitucional o Dia da Umbanda, já comemorado em algumas regiões do país, propõe a liberdade de crença e o livre exercício dos cultos religiosos, fortalecendo ainda mais a luta contra a discriminação e intolerância religiosa.
Junto à Presidenta Dilma, assinaram a Lei a Ministra da Cultura Anna Maria Buarque de Hollanda, filha de Maria Amélia e do historiador e sociólogo Sérgio Buarque e irmã do cantor Chico Buarque, como também a Ministra da Igualdade Racial, Luiza Helena de Bairros, socióloga reconhecida como uma das principais lideranças do movimento negro no Brasil.

 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Antônio, o Santo de Todo o Mundo

A situação religiosa da Europa na época em que viveu Antônio de Pádua, estava caótica. A Igreja Romana perseguia e matava milhares de pessoas em nome do amor de Jesus, do perdão e da paz.
Com a desculpa de catequizar os "hereges" da Igreja Grega e os "pagãos" seguidores de Maomé, a Igreja Católica Romana incitava o clero e demais fiéis a saírem em diversas empreitadas a fim de saquear os seus opositores, através do que ficou conhecido como "as Cruzadas".
O poder da Igreja deixou de ser eterno e espiritual para se transformar em um poder político e temporal. O Papa, cheio de riqueza e poder, era o centro de todas as intrigas políticas da época. Contudo, ninguém sequer abria a boca em sinal de protesto, tamanho era o medo causado pelas fogueiras, pela excomunhão e pelas masmorras.
Nessa época, ganhava fama a ordem inaugurada por Francisco de Assis. Diversos homens encontraram nas palavras de Francisco, a força e a coragem necessárias para propagarem a fé verdadeira no Cristo Jesus. Porém, o fanatismo dos novos franciscanos foi motivo de muitas atrocidades e resultados insatisfatórios junto aos povos.
Certa vez um grupo de cinco frades franciscanos foram massacrados em Marrocos devido à sua impetuosidade em evangelizar os maometanos. Seu radicalismo era tão excedente que eles se referiam a Maomé como "maldito, profano, sujo e maligno profeta".
O fanatismo e a intolerância dos frades eram tão grandes que foram então fendidos à espada e degolados.
Esse massacre dos frades franciscanos entusiasmou o jovem Fernando de Bulhões, que resolveu seguir o exemplo de abnegação dos frades e entrou para o convento franciscano fundado pela rainha D. Urraca, mulher de Afonso II, em Olivais, Coimbra. Assim, aos 25 anos de idade, em 1220, abandona o nome de batismo e adota o nome de Antônio, padroeiro do convento de Olivais.
Logo assim que tomou ordens no convento de Olivais, quis Antônio seguir para a África, a fim de sofrer os martírios em nome da fé. Porém, tão logo chegou no continente, adoeceu gravemente e foi reembarcado para a Espanha, mas o navio em que estava Antônio saiu de sua rota e foi aportar na Itália, na costa de Taormina, Sicília. Dirigiu-se para Messina e lá convalesceu durante dois meses.
Antônio permanecia ignorado enquanto convalescia até que certa vez surgiu a oportunidade de iniciar as demonstrações de seus dons mediúnicos. Dons estes que encheram de luz e maravilhas, ditos como milagres, as terras da Itália e da França.
Em Porciúncula reuniram-se cerca de 3.000 frades franciscanos numa assembléia em que Francisco de Assis, fundador da Ordem, foi o presidente. Antônio lá compareceu, mesmo sem ter sido convocado, e porque era figura inteiramente desconhecida, não foi sequer notado. Juntando-se ao fato de ser tão franzino e ainda estar em convalescência, Antônio era modesto e humilde, e escondia cuidadosamente suas qualidades mediúnicas.
Porém, noutra ocasião, numa assembléia ocorrida em Forli, na Itália, entre franciscanos e dominicanos, foi que surgiu a oportunidade para Antônio. No refeitório, o prelado pediu aos frades que dissessem algumas palavras evangelizadoras. Após várias recusas dos frades, em tom de zombaria, forçaram o insignificante Antônio a fazer a pregação evangelizadora. Ele escusou-se, mas disseram: "Diz o que o Espírito Santo sugerir".
Antônio começou a falar e iniciou pelo temor de Deus e, aos poucos, foi se infiltrando nos pontos delicados da doutrina e da prática do cristianismo demonstrando um profundo conhecimento das Sagradas Escrituras. Assustados, informaram o caso a Francisco de Assis e dentro de pouco tempo, foi transformado em pregador eminente. Junto às pregações, Antônio produzia os mais assombrosos fenômenos mediúnicos que revolucionaram a todos.
Após ter vivido sete anos como frade franciscano, pois desencarnou aos 36 anos de idade, encheu as crônicas de Portugal, França e Itália com as manifestações de sua mediunidade excepcional.
Foi canonizado pela Igreja em 1232, onze meses após sua morte, pelo Papa Gregório IX. Já o Papa Leão XIII chamou Santo Antônio de "Santo de Todo o Mundo".

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Tanto Barulho Por Nada...




Sob o título "A Prefeita de São Gonçalo não é Mais Importante Que a Umbanda", os umbandistas Átila Nunes e Átila Nunes Neto escreveram a seguinte matéria que serve de reflexão para todos os umbandistas. Esta matéria foi publicada no Site Povo de Aruanda .

Assim que surgiu o noticiário sobre a demolição da casa onde Zélio de Moraes nasceu e fundou a Umbanda, no município de São Gonçalo, Rio de Janeiro, conversei com o Secretário de Obras daquela Prefeitura, Valmir Barros.

Aquele imóvel, onde nasceu a Umbanda, hoje é de propriedade de Verônica Matta da Silva Costa, tendo dado entrada do pedido de licença em 13 de abril deste ano.

A licença para demolição foi concedida pela prefeita Aparecida Panisset e a construção de um galpão, no lugar do berço da Umbanda, teve início no último dia 6 de julho.

Esse episódio encerra várias lições para todos nós, umbandistas.

Existem dezenas de terreiros de Umbanda e Candomblé que têm história. E que devem ser preservados, não pelo simples fato de serem terreiros, mas sobretudo, pelo seu significado cultural.

O maior exemplo de preservação de templos históricos vem da Igreja Católica, que – com a ajuda governamental – mantém intactas igrejas centenárias, algumas tombadas e reconhecidas como patrimônio mundial pela Unesco.

Em todo o Brasil, temos terreiros que são conhecidos por denominações diversas: Umbanda, Candomblé, Catimbó, Xangô, Batuque, Jurema etc, conforme o Estado de origem.

Alguns têm quase 100 anos. E devem ser preservados através de um movimento que parta de nossos irmãos em cada estado brasileiro. Como foi a Casa de Menininha do Gantois, na Bahia.

De quem é a responsabilidade nesse episódio de São Gonçalo, em que o centro onde Zélio de Moraes anunciou a criação da Umbanda, foi demolido em abril deste ano?

Vamos aos fatos. E fatos não são opiniões. Fatos são fatos. São inquestionáveis. Aconteceram.

É óbvio que a prefeita evangélica de São Gonçalo, Aparecida Panisset, (que está no segundo mandato), SABIA SIM, que ali era um casarão, onde nasceu a Umbanda, em 1908. Afinal, ela é professora de História.

Ou alguém acha que o prefeito de uma cidade não sabe onde se encontram os mais importantes templos religiosos de seu município?

É zero a possibilidade da prefeita evangélica Aparecida Panisset ignorar que ali era o berço da Umbanda. É CLARO QUE ELA SABIA que ali existia um patrimônio cultural-religioso a ser preservado.

Se tivesse agido como prefeita, como administradora, E NÃO COMO EVANGÉLICA RADICAL, teria decretado o tombamento da casa onde Zélio anunciou a Umbanda.

Dá para imaginar que o prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, desconheça a importância da Igreja da Candelária?

Ou que o prefeito de Salvador ignore a importância da casa de Mãe Meninha do Gantois (que aliás, foi tombada pelo Ministério da Cultura e pelo Iphan)?

Dá para imaginar que o prefeito de São Paulo, ignore a importância da Catedral da Sé?

É óbvio que a prefeita Aparecida Panisset, conhecida pela sua posição religiosa radical, com origem na Igreja Nova Vida (neopentecostal) dificilmente moveria uma palha para desapropriar aquele imóvel, salvando-o da demolição.

A mídia daquela cidade tem denunciado os benefícios governamentais da Panisset destinados aos neopentecostais gonçalenses: igrejas, funcionários, carros e contratação de religiosos.

No seu primeiro ano de governo, segundo a imprensa, Aparecida Panisset ameaçou proibir a tradicional procissão e o tapete de sal de Corpus Christi, tradições católicas.

Numa longa entrevista ao jornal Extra (RJ), Aparecida Panisset se apresenta quase como uma personagem bíblica quando fala de si por meio de parábolas (ver trecho da matéria abaixo)

A prefeita de São Gonçalo, contudo, não é mais importante do que a Umbanda.

Não será pela omissão criminosa da prefeita Aparecida Panisset, que poderia ter impedido a demolição do primeiro imóvel da Umbanda através de um simples decreto de tombamento, que nossa religião deixará de avançar.

Pelo contrário, esse ato covarde só nos anima a avançar mais ainda.

Nenhuma outra religião no Brasil foi mais perseguida, humilhada, vilipendiada e agredida do que a Umbanda. Nenhuma!

Primeiro, foram os colonizadores que impingiram o sincretismo religioso aos escravos.

Depois, vieram as proibições aos cultos, que partiam de ordens das autoridades, chegando ao cúmulo das invasões pela policia dos terreiros, com médiuns presos, atabaques e símbolos religiosos destruídos.

Depois, na década de 80, grupos de ditos neopentecostais, na verdade, membros de seitas eletrônicas, fizeram de tudo para destruir a Umbanda, notadamente no Rio de Janeiro. A certeza de que seriam vitoriosos era tão grande, que partiram para cima da Igreja Católica, chegando a exibir na TV imagens de “bispos” chutando a imagem de Nossa Senhora da Aparecida.

Não conseguiram nos destruir. Não fecharam os terreiros. Não calaram nossos atabaques.

A Umbanda continua. Sem dízimo. Sem recursos. Sem emissoras de Rádio e TV. Sem ajuda do governo. Nada. Continua graças à fé nos espíritos de luz.

Por isso, a demolição da casa onde Zélio de Moraes anunciou a Umbanda, é apenas mais um episódio – doloroso, é verdade – na caminhada da nossa religião.

Daqui a um ano, a hoje prefeita Aparecida Panisset deixará a prefeitura de São Gonçalo. Pode até conquistar um ou outro cargo político. Mas, seu destino final está traçado: o ostracismo, o mais absoluto esquecimento.

Daqui a mais alguns anos, ninguém se lembrará de quem foi Aparecida Panisset. Em São Gonçalo, um ou outro se lembrará da ex-prefeita. Não deixará boas lembranças. Nenhum legado administrativo. Ou grande obra. Nada.

Ninguém no Estado Rio de Janeiro, e muito menos do Brasil, se lembrará de uma prefeita, que num dos municípios com maior desigualdade social do Estado do Rio de Janeiro, foi denunciada por proibir a procissão de Corpus Christi e demolir a primeira casa de Umbanda.

Aparecida Panisset desaparecerá no resíduo da História.

A Procissão de Corpus Christi e a Umbanda continuarão vivas. Vivas na memória e nos corações dos brasileiros.

UMBANDA UNIDA, UMBANDA FORTE!

Átila Nunes e Átila Nunes Neto