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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Alan Barbieri Responde: Incorporar em Casa, Tem Problema?

Utilizando uma linguagem de fácil entendimento e recheada de fundamento, Alan Barbieri explica sobre os perigos de se "Incorporar Guias" dentro de casa, bem como aborda as consequências dessa prática que envolve o equilíbrio de frequências vibratórias.
"O grande problema está nas consultas dadas a familiares e pessoas próximas", afirma Alan. "Incorporar não é brincadeira, pois é um processo complexo. Por isso nós temos o terreiro de Umbanda, com uma hierarquia, com uma estrutura espiritual, com assentamentos, com toda uma organização material e espiritual para que tudo corra da melhor forma possível."
Veja o vídeo e entenda melhor sobre o assunto:


domingo, 2 de julho de 2017

Desencarna, aos 84 Anos, o Precursor do Espiritismo em Guarapari

Manuel Sampaio Netto, poeta, trovador, escritor e compositor, faleceu na madrugada do dia 02 de julho, às 5h, em um hospital da Grande Vitória, onde estava internado.
Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, no dia 29 de abril de 1933, era filho de Mário Sampaio e de Maria Rocha Sampaio e publicou diversos poemas com temas cristãos em vários jornais e revistas. Em 1988 gravou catorze músicas de sua autoria.
Autor dos livros "Ao Encontro da Luz" e "Ao Encontro da Luz II" e membro da Academia de Letras de Marataízes, foi um dos pioneiros do movimento espírita no Estado do Espírito Santo.
Em 1976 fundou o Grupo Espírita Allan Kardec, o qual desenvolve até hoje atividades espirituais e sociais com vistas à melhoria da vida da população guarapariense.
Inicialmente fundado à rua Lúcio Maia, em Muquiçaba, o GEAK funcionou na residência de Manuel Sampaio e sua esposa Norma Santana Sampaio.
Em seu site na Internet, o GEAK revela que o casal inicialmente ia à Capital Vitória para frequentar as reuniões públicas espíritas e logo percebeu a necessidade de organizar um Grupo, pois a sala de sua casa já não comportava os frequentadores de suas reuniões.
Em 1979 alugaram uma casa no bairro Caminho da Fonte, onde iniciaram as atividades com reuniões públicas doutrinárias às segundas-feiras, evangelização aos sábados e reuniões mediúnicas às sextas-feiras.
Com o crescimento do número de frequentadores, Manuel e Norma viram a necessidade de adquirir um terreno para construir a sede própria do Grupo. Após muitas doações, a sede foi inaugurada finalmente à rua Horácio Santana, no bairro Olaria em 31 de março de 1982.
Baluarte do Espiritismo, em Guarapari, Manuel Sampaio Netto era conhecido por seu espírito conciliador e de grande altruísmo. Deixou diversos poemas, dentre os quais transcrevemos um em sua memória.

Deus e a Natureza

Quando o homem observar à sua volta
Há de ver a presença de seu Deus
Na manhã, ao sol nascer.
E, se continua a busca e se insistir e pensar
Há de encontrá-lo também
Nas águas azuis do mar.
Quem tem olhos há de ver
Verificando, se espanta
Que o bom Deus se manifesta
No crescimento da planta.
Creio muito, com certeza
A vida sem Deus é nada
Ele está em tudo, em todos
E na noite enluarada
Olhe bem a natureza
E veja o trabalho de arte
E sentirás com certeza
Deus está em toda parte.

Autor: Manuel Sampaio Netto



Foto: Folhaonline.es

domingo, 10 de junho de 2012

O Papel do Médium de Umbanda

O indivíduo que trabalha nas fileiras umbandistas, exercitando suas faculdades mediúnicas nas reuniões chamadas Giras, ou Engiras, desempenha ações importantíssimas na evolução coletiva e na solução de problemas de diversas ordens que acometem a todos os que freqüentam as Tendas de Umbanda. O médium de Umbanda tem o papel único e maravilhoso de servo! É servindo ao próximo, numa entrega incondicional e desinteressada, de coração jubilado, que o médium de roupas brancas da Umbanda realiza a maior e mais perfeita das ordenanças cristãs: “amar ao próximo, como a si mesmo”!
Sem a consciência de que tudo o que faz numa Tenda ou num Terreiro é em benefício alheio, o médium carece de orientação e estudo mais profundo das verdades espirituais.
Dentro de um Terreiro o papel do filho de Umbanda começa logo assim que cruza os portões da entrada onde está assentado o Guardião da casa. Mas, não se trata apenas de alguns toques costumeiros no chão, ou saudações decoradas de palavras vazias e repetitivas. O “trabalho” do médium tem início através dos bons pensamentos que deve considerar assim que chega ao Templo munido dos utensílios e materiais litúrgicos que serão utilizados na sessão. O médium irá participar de uma reunião aonde centenas de outros Espíritos, dos mais diferentes níveis conscienciais e padrões vibratórios, também irão a fim de encontrarem alívio e soluções para suas dores e seus problemas. Aquele que servirá de instrumento aos Guias de Lei deve responsabilizar-se em ser mais útil ainda. Ao saudar o Guardião deve tomar, desde esse momento, uma postura vigilante e consciente de que Espíritos que descerão à Terra para fazer a caridade dependerão de sua boa vontade e de seu desprendimento. Mesmo estando numa posição dentro do Terreiro em que inevitavelmente será alvo dos olhares curiosos dos visitantes e freqüentadores, o médium precisa entender que o mais importante será o bem que as Entidades farão na Gira.
Todos os médiuns são importantes numa Gira. Desde o menor ao maior, se é verdade que exista essa classificação entre os umbandistas.
É comum as pessoas darem importância maior à Incorporação. Também é fato corriqueiro que a grande maioria dos que iniciam numa Corrente de Umbanda, almeja logo “receber Caboclo”. Entretanto, há funções tão ou mais importantes num Terreiro quanto a dos médiuns que servem de “aparelhos” aos Guias.
Os “Cambones”, ou Médiuns Auxiliares, exercitam sua mediunidade através da servil e humilde tarefa de atender aos pedidos de uma Entidade, seja Caboclo, Preto Velho, ou até mesmo Exu.
Os “Ogãs de Toque e de Canto”, ou Médiuns Instrumentistas e Cantadores de Ponto, são importantíssimos no trabalho de manter o equilíbrio vibratório das Giras e o de preservar a pura sintonia dos pensamentos coletivos.
Há ainda os médiuns que executam a tarefa de coordenar a entrada dos assistentes no Congá, os que trabalham na limpeza do Terreiro, os que cuidam do material litúrgico comum a todos, os que zelam pelo incenso e pelo turíbulo, os que desempenham tarefas administrativas e os que coordenam o andamento das sessões. Tem também aqueles que gratuitamente trabalham nas cantinas e nos bazares, e os que realizam tantos outros serviços que parecem de pouca importância, mas que no fim trará grandes benefícios no desenvolvimento da própria mediunidade.
O que seria dos médiuns de Incorporação se não existissem todos os outros que, invisíveis aos olhos de muitos, asseguram o bem estar deles mesmos? Como aqueles poderiam ser úteis no atendimento aos consulentes se não existissem os médiuns que, mesmo não incorporando, fazem parte da Gira contribuindo caritativamente com seus serviços? No fim das contas, todos os médiuns exercem o mesmo papel: o de servo bom e fiel a serviço da Corrente Astral de Umbanda.

Julio Cezar Gomes Pinto 

Introdução ao Estudo da Mediunidade

Médium é o termo utilizado em grande escala, a partir da codificação do Espiritismo, para designar os Espíritos encarnados que têm a faculdade inata de entrar em contato com o Mundo Espiritual e dali tirar impressões. A palavra, de origem latina, significa “medianeiro, ou aquele que está no meio”. Médium é aquele ser vivente que, por evocações ou independente disso, pode contatar os Espíritos desencarnados e com eles estabelecer conversações ou outros tipos de interação. Outrora chamados de videntes, profetas, bruxos e benzedeiros, os médiuns eram vistos como homens especiais, dotados de grande poder ou sabedoria que sempre tinha origem divina. Em algumas épocas foram fortemente combatidos e perseguidos por possuírem um dom que não era comum às outras pessoas. Muitos foram queimados vivos, crucificados ou esquartejados por uma mediunidade que era vista como oriunda das trevas e dos seres que lá habitam. Em outros tempos foram muito bem quistos e respeitados pela sociedade da época, considerados pelos seus como homens especiais, missionários ou mensageiros dos deuses.

Embora os médiuns sejam vistos por muitos como seres especiais, na verdade são pessoas comuns, desprovidos de qualquer sinal exterior de sua faculdade. Alguns médiuns, entretanto, desconhecedores de seu verdadeiro papel na sociedade, consideram-se realmente maravilhosos e supremos diante dos outros. Estes, na verdade, desconhecem a grande oportunidade que os Céus outorgaram-lhes para servirem de instrumentos importantes à evolução dos demais, e da própria, uma vez que podem ser úteis nas mãos dos Espíritos de Luz, que na Umbanda são chamados de Caboclos ou Pretos Velhos de Aruanda.
Os médiuns que se destacaram a partir do surgimento do Espiritismo foram alvos de grande especulação. Uns foram considerados charlatães, outros alcançaram grande destaque na mídia e alguns sucumbiram aos interesses materiais. Foram estudados e analisados por céticos que não compreenderam a natureza deste dom. Observados preconceituosamente por algumas religiões, os médiuns tiveram suas entranhas esquadrinhadas e seus cérebros verificados à luz da Ciência. Há quem diga que o dom mediúnico tem origem na glândula pineal, que supostamente teria uma função diferente da daqueles que não demonstram qualquer sinal de mediunidade.
Ao possuir um dom tão importante ao crescimento espiritual da humanidade, faz-se necessário que o médium de Umbanda seja uma pessoa voltada à meditação, ao aprimoramento interior e ao bem comum da comunidade ao redor. Tornando-se um bom instrumento nas mãos dos Espíritos de Luz, ou Superiores, pode alavancar o progresso da humanidade. O contrário se dá quando o médium, relapso e desregrado, alheio às mensagens evangélicas do Cristo Jesus, de ouvidos tampados à voz dos Grandes Guias Espirituais ou voltados a práticas e vícios puramente materiais, pode transformar-se em presa fácil de Espíritos inferiores, trevosos e obsessores, que vêem nele ótimo meio de satisfação ou fonte de energia animal. Assim sendo, a mediunidade tende a ser, ao mesmo tempo, um grande presente ou uma gigantesca armadilha. Mediunidade exercida de forma irresponsável é doença que arremessa o Espírito aos escuros leitos da superstição, do fanatismo e da loucura.
O médium de Umbanda deve ser um estudioso das coisas espirituais, já que o dom que possui abre-lhe numerosas oportunidades de estar em sintonia com os seres habitantes do Plano Espiritual. Os estudos contínuos, a compreensão sincera de suas faculdades e o real conhecimento da dádiva recebida, transformam-no, ainda que imperfeito, em sonoro porta-voz de Aruanda.
Os Caboclos de Aruanda são humildes, serenos e aguerridos trabalhadores da Caridade. Assim deve ser o Médium da Religião de Umbanda. A vaidade, a soberba, a ganância e o orgulho, prejudiciais defeitos de caráter, devem ser banidos do comportamento de qualquer médium de Umbanda.

Julio Cezar Gomes Pinto

O Contato Com os Espíritos

Foi a partir do contato realizado por Espíritos desencarnados através da mediunidade de um jovem chamado Zélio de Moraes que surgiu, em 1908, a Religião de Umbanda. Esse contato, acontecido de forma surpreendente e inusitada, fez a vida de toda uma família mudar. Ao mesmo tempo, o afloramento da mediunidade de Zélio proporcionou a milhares de outras pessoas a oportunidade de encontrar um caminho espiritual na busca do Divino. A Umbanda nasceu ou, como dizem alguns, foi anunciada através da manifestação mediúnica do Espírito que se identificou como um “caboclo” das terras brasileiras. É bem verdade que manifestações do tipo ocorrido com Zélio já aconteciam no Brasil, mas a que configurou como sendo o marco inicial da Umbanda ganhou projeção e espalhou-se com rapidez entre as pessoas estupefatas. Fato que acontecia com cautela somente em sessões particulares dos centros espíritas recém-inaugurados passou a ser comum aos olhos do povo e ficou classificado como o fenômeno da incorporação.
A Incorporação, assim chamada na Umbanda, é uma modalidade mediúnica conhecida entre os estudiosos do Espiritismo pelo nome de Psicofonia: a mediunidade em que o médium fala pela influência dos Espíritos. Pela forma como acontece, quando então o Espírito dá a impressão de ter se apossado do corpo do médium, esse tipo recebeu o nome de Incorporação. Na verdade, o Espírito não “entra” no corpo do encarnado como parece, mas estabelece uma forte ligação energética e mental com o medianeiro e este, sob sua influência, fala, gesticula, dança e anda. Antes mesmo de ser levado pelos parentes ao centro espírita, Zélio apresentou os primeiros sintomas de mediunidade dessa forma.
Nos dias que antecederam o anúncio da nova religião, o médium de 17 anos portou-se de forma estranha. Algumas vezes encurvava-se e apresentava aparência de um idoso e em outras assumia o aspecto de um homem vigoroso e sisudo. Falava numa língua desconhecida e demonstrava um semblante diferente do habitual. E assim aconteceu até que finalmente abriu os lábios e, com espantosa entrega à força espiritual, revelou a verdadeira intenção dos Caboclos de Aruanda.
Desde então, o contato direto com os Espíritos e a Incorporação estabeleceram-se como sendo uma premissa na Religião de Umbanda. Os curiosos correm aos centros para testemunharem a manifestação e ficam se perguntando para onde terá ido o espírito do médium. Outros, ávidos por obter informações relacionadas ao amor, ao futuro e aos negócios, aproximam-se de alguma Entidade manifestada no médium e travam um interrogatório pouco proveitoso. Outros mais, de maneira piedosa e sincera, recebem passes, curas e orientações acerca da vida espiritual através de um Caboclo ou de um Preto Velho. De qualquer forma, na Religião de Umbanda, os Espíritos encarnados e desencarnados interagem e se comunicam abertamente, fortalecendo a crença de que na verdade ninguém morre, mas apenas passa de uma condição a outra naturalmente.
O contato natural, a comunicação com o mundo espiritual e a interação entre encarnados e desencarnados sempre foi uma busca dos homens. Há muito que as pessoas têm vontade de desvendar os mistérios que rondam o “outro lado da vida”. Desde os primeiros registros da História humana, essa aproximação mais efetiva entre os “dois mundos” foi pretendida, tanto pelos encarnados, quanto pelos Espíritos daqueles que partiram antes dos seus parentes e amigos.
Embora vista com assombro por muitas pessoas, a tentativa de comunicação dos Espíritos ocorreu e ficou registrada em muitos episódios da História. No dia-a-dia, esse contato ocorre imperceptível. Quer seja através de uma simples inspiração ou por meio de um sinal, visto por todos como “um aviso”. Grande parte dos sonhos tem um fundo espiritual. Durante o sono, os Espíritos desencarnados têm a chance de unirem-se aos encarnados em diálogos salutares a ambos.

Julio Cezar Gomes Pinto

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Onde Está Minha Coroa?!




Em alguns terreiros de Umbanda é comum a confirmação ao trabalho de um médium em desenvolvimento através do ritual conhecido pelo nome de Coroação. Já outros terreiros usam o ritual do Amaci (lavagem da cabeça com ervas específicas) como ato confirmatório da preparação ao serviço mediúnico daquele que por alguns meses ou anos freqüentou a corrente e participou das giras de desenvolvimento. Já outros terreiros sequer utilizam algum ritual preparatório. Os chefes verificam a incorporação e o teor de algumas mensagens das entidades incorporadas e depois enviam o médium para o trabalho na corrente. Tais procedimentos, entretanto, variam de uma casa para outra. Como não há nenhuma determinação geral e única, cada agrupamento de umbandistas pratica aquilo que aprenderam com seus pais ou mães de santo e perpetuam o ritual em seus templos.
A coroação do médium não se restringe a apenas uma lavagem de cabeça com ervas aromáticas, ou raspagem, ou cortes, ou quaisquer outros rituais meramente externos de demonstração pública. Considerando todas as etapas do processo de preparação, o médium em desenvolvimento não perde seu tempo em interrogações inoportunas ao Dirigente ou ao Guia-Chefe pelo dia em que será finalmente coroado. A espera é salutar, mas a pressa torna o aprendizado deficiente. A ansiedade, a intemperança e a impaciência são entraves para um saudável processo de aprendizado e um manuseio firme e seguro do seu instrumento de trabalho, a mediunidade.
Uma corrente de Umbanda é composta basicamente de médiuns em preparação, médiuns preparados e Guias Espirituais. O preparo do médium que irá servir de instrumento dos Mentores Espirituais da Umbanda é etapa importante para o bom e seguro trabalho de uma corrente umbandista. Essa preparação engloba tantos passos que grande parte dos médiuns em desenvolvimento desistem do serviço sacerdotal que iriam desempenhar. O fato é que muitos não aprenderam a controlar seus impulsos e gostariam de já estar “trabalhando” com seus Guias. Acreditam que somente o fato de sentir “uma vibração” intensa das Entidades já é suficiente para ouvir o consulente, aplicar-lhe passes e rezas, receitar obrigações, oferendas e banhos ou realizar trabalhos de desmanches de magia – serviço muito perigoso, mas comum nos terreiros de Umbanda.
Os médiuns em preparação, ou em desenvolvimento, desconhecem algumas nuances da mediunidade que podem ser prejudiciais a si mesmos e até mesmo a todo o corpo mediúnico. Não têm a percepção de que a mediunidade pode ser-lhes útil ou poderá se transformar num grande trampolim colocado à beira de um precipício. Tal a necessidade do preparo acompanhado de perto pelo Guia-Chefe e sob os olhos sempre atentos do Dirigente Espiritual do Terreiro.
O médium que age pelo impulso é comparável àquele discípulo que mereceu várias vezes as reprimendas de Jesus Cristo, tamanha era sua impulsividade. Por impulso, Pedro arrancou a orelha de um soldado. Noutra ocasião, o mesmo Pedro que antes havia sido corrigido por Jesus exclamou que iria para a cruz no lugar do Mestre. Também por impulso, o apóstolo respondeu a Jesus, logo depois da Ressurreição, que o amava. O indivíduo que usa a mediunidade sem o devido preparo é como o homem que empunha a espada sem o treino da habilidade: fatalmente alguém sairá ferido no fim das contas.
Pedro teve que aprender a controlar os impulsos e, acima de tudo, a ser paciente. A paciência é uma virtude que deve ser cultivada por todo aquele que deseja servir à Espiritualidade Maior.
O primeiro passo que o postulante ao exercício mediúnico deve dar, a partir da real compreensão do chamado realizado pelos Mentores da Corrente Astral da Umbanda é o abandono dos velhos costumes por uma promessa de grandes resultados futuros. Assim como Pedro abandonou a rede que consertava e iniciou uma trajetória de aprendizado contínuo, o médium em desenvolvimento literalmente lança ao chão os velhos dogmas e as concepções errôneas acerca da vida espiritual, da caridade e do seu papel na vida comum.
As palavras ”é necessário ao homem nascer de novo” implicam em deixar para trás todas as amarras do velho homem que todos levam consigo para as correntes mediúnicas, sejam em formas de pensamentos, atitudes ou visões do exterior. É preciso deixar para trás alguns conceitos que outrora cultivou com tanto afinco e sem resultado concreto, tal como a crença em condenações eternas, ou o temor a um Deus vingativo e cruel, ou a unicidade da existência, ou ainda a religiosa supremacia de uma única raça e a demonização de irmãos e amigos desencarnados. Conceitos que afastam o médium de sua importância no intercâmbio espiritual e o lança a um mundo materialista e obscuro.
A próxima etapa nesse vagaroso processo de aprendizado é a caminhada diária e constante, sempre guiado pelo Mestre e Amigo. Pedro, assim como os demais discípulos, precisou caminhar ao lado de homens que mal conhecia. Alguns deles até mesmo eram mal-vistos pela tradição religiosa da época. E, nessa caminhada diária, muitas coisas viu e ouviu do Mestre Nazareno. Nas idas e vindas pelas terras da Judéia, Pedro atravessou um longo estágio de aprendizado.
O médium em preparação carece de um tempo para assimilar todas as coisas que ouvirá do Guia Espiritual e todas as informações são dosadas diariamente. Não se aprende tudo em um único dia ou em um único mês. É preciso tempo e observação constante de tudo o que estará vivenciando ao longo dos meses. Há que compreender também as diferentes opiniões e modos de agir dos seus irmãos de corrente.


O desenvolvimento envolve, ainda que dolorosamente, a aceitação das diferenças comportamentais, ideológicas, religiosas, sociais e morais de co-participantes dos rituais umbandistas. Mesmo que tenha um pouco mais de conhecimento, não deverá se colocar acima dos demais como o senhor da verdade apontando-lhes as falhas e os tropeços da caminhada.
A oração constante, a busca pela essência divina e o esforço por uma vida espiritual mais elevada devem estar no trabalho individual de preparação ao serviço mediúnico nos terreiros de Umbanda. Para obter grandes e preciosas inspirações dos Mentores de Aruanda, o médium em desenvolvimento colocar-se-á em humilde posição de alma necessitada e buscará a força necessária através de horas de conexão com o Plano Superior. Assim, terá experiência suficiente para discernir entre a comunicação de um Guia Superior ou a ardilosa verborragia de uma Entidade embusteira.
A confirmação para o trabalho mediúnico chegará no tempo certo não sem antes a verdadeira compreensão do ministério repetido várias vezes dentro de si. Como fez o discípulo quando interpelado pelo Cristo sobre o seu amor incondicional. Após a confirmação íntima de sua responsabilidade como médium a serviço da Espiritualidade Maior, virá do Alto o poder necessário para desempenhar o trabalho corretamente. É quando descem da Corrente Astral as irradiações poderosas dos Orixás que formam as Sete Linhas de Umbanda. A partir daí, o médium poderá ter sua “coroa” confirmada pelo Guia Chefe e pelos seus próprios Mentores.






Julio Cezar Gomes Pinto


Casa de Caridade Santo Antônio de Pádua


Guarapari-ES

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Quatro Aspectos da Mediunidade Sem Instrução

O estudo contínuo dos assuntos relacionados à mediunidade na Umbanda remove dentre seus seguidores dezenas, quiçá centenas, de crendices, costumes e hábitos que têm se mostrado nocivos à própria Religião. Muitos umbandistas têm uma visão deturpada do que significa o dom mediúnico em suas vidas e dentro dos terreiros. Centenas de adeptos desenvolvem uma mediunidade repleta de entendimento errôneo, suposições equivocadas e vícios comuns a pessoas que pouco, ou quase nenhum, acesso têm à informação. Muitos desses equívocos são provocados justamente pelo desconhecimento. Os maus hábitos acumulam-se ao longo do tempo e transformam-se em vícios que necessitam de tratamento imediato. Os erros acontecem aos montes causando muito desconforto aos Caboclos de Aruanda, que vez por outra precisam intervir para remediar a situação. A culpa de tais problemas poderia ser atribuída a muita gente: Chefes de Terreiro despreparados, médiuns afoitos ou de pouca instrução, seguidores pouco compromissados com a religião, dirigentes desinteressados e até mesmo Espíritos desencarnados causadores de demandas. A realidade mostra, porém, que a maior causa de todos os problemas que afetam a missão do umbandista é unicamente a falta de estudo. Sem o mínimo conhecimento de tudo o que envolve o mecanismo da mediunidade, assim como em muitos outros aspectos da vida comum, os erros grosseiros e infantis acontecem em profusão. A mediunidade, a partir de uma prática sem base teórica, tende a ser conduzida como um brinquedo nas mãos de infantes.
A mediunidade não é superstição. Partindo da premissa de que deve ser exercitado numa perfeita união entre a Fé e a Sabedoria, o dom mediúnico transforma-se em valioso instrumento de propagação das verdades espirituais. De outra forma, a mediunidade equivocada é conduzida do mesmo jeito como o adivinho faz com as entranhas de um animal. Não há verdades. Tudo é subjetivo e enganoso. Falta ciência e sabedoria.
A mediunidade supersticiosa transforma os Guias Espirituais em oráculos domésticos, onde os mais ínfimos problemas de ordem inferior são levados em conta. Assim, o Preto Velho passa a ser o informante da traição de um marido ou do futuro econômico de um filho carnal. O Caboclo, por sua vez, transforma-se em ajudante fiel dos negócios ou aquele que vai vencer um inimigo de desafeto. Na mesma proporção, o Exu abandona a condição de Guardião e assume o papel de vingador ferrenho, ou um escravo à disposição do médium. A Pomba Gira, sob a mesma ótica, é tida como uma prostituta arrependida e por isso mesmo obrigada a arranjar parceiros para pessoas de moral duvidosa.
A mediunidade não é show pirotécnico onde o que se vê são rápidos e ilusórios lampejos de brilhos multicoloridos. O médium sem instrução transforma o dom em ótimo artifício na exibição de espetaculares manobras que mais chamam a atenção dos curiosos e dos seres trevosos do que dos Espíritos de Luz. Assim, tudo é espantoso e deslumbrante. Todos os gestos do médium em transe são inchados de exageros. Todas as receitas de oferendas são idênticas às listas de um estranho guisado. Os pontos riscados transformam-se numa mandala confusa de desenhos e rabiscos infantis sem fundamento. As brancas vestes sacerdotais assumem a aparência de fantasias carnavalescas em que imperam o luxo, a vaidade e o exibicionismo.
Na mediunidade pirotécnica, vale mais a grosseira presença física do médium do que a suave e discreta participação dos Guias de Luz. O Preto Velho se esconde, o Caboclo se afasta, o Exu ri do fanfarrão e o médium se exibe. Neste tipo de condução da mediunidade há uma completa falta de força espiritual, pois a carne assume todas as funções do medianeiro e o animismo, a mistificação e a charlatanice estão em primeira linha.
Entre tantas formas de se exercitar a mediunidade há também a que leva em conta a ascensão social do médium. É a mediunidade interesseira.
A mediunidade interesseira é aquela em que as reais intenções do indivíduo são quase desconhecidas. Há muitos interesses em jogo, e o principal é o de “subir” na vida. O médium intenciona ser aplaudido, então usa a mediunidade para chamar a atenção da platéia. O médium quer obter dinheiro de forma menos trabalhosa, então comercializa o dom. Se tem interesse em reconhecimento público, então transforma a mediunidade em degrau para a subida aos palanques políticos, aos palcos da mídia e aos púlpitos das câmaras e agremiações. Tal como o médium pirotécnico, o médium interesseiro quer aparecer, mas com o fim certo de obter algum rendimento financeiro.
Nesse tipo de mediunidade, o indivíduo não se envergonha ao “pedir” o pagamento pelo serviço prestado. Seu rosto não enrubesce quando dita o valor daquilo que vergonhosamente chama de caridade. Se precisar usar uma máscara, certamente o fará. Mas, em seu tempo, lançará por terra a fantasia e mostrará sua verdadeira e tenebrosa face. Como o lobo entre os cordeiros.
A mediunidade ignorante é exercida pelos que verdadeiramente têm grande aversão ao estudo e à meditação. Nessa modalidade, o médium conscientemente classifica o estudo contínuo como algo desnecessário. Acredita que somente as instruções dos Caboclos já são suficientes para que ele seja um grande instrumento da Comunidade Espiritual. A leitura, a pesquisa e o conhecimento dos mecanismos mediúnicos são coisas sem importância na visão dos ignorantes.
Neste caso, o médium não se importa em cometer diversos absurdos em nome de Deus, pois não há o conhecimento do que realmente é a vontade divina. Fala, mesmo usando conversações aparentemente profundas, do mesmo jeito como discursa um simples camponês acerca do universo astronômico. Age sempre de forma impensada, ainda que com a maior boa vontade. Suas ações são completamente sem método, critério ou planejamento. Tem uma visão do mundo espiritual como seus antepassados que outrora atribuíam ao relâmpago um castigo dos deuses ou aos abalos sísmicos uma demonstração da ira divina. Na mediunidade ignorante quanto menos se estuda, mais se erra.
Ser instrumento da Espiritualidade Maior é uma benção recebida por muitos. Porém, como qualquer instrumento necessita de um aprimoramento e de ajustes constantes, assim é o médium de Umbanda a serviço dos Caboclos e Pretos Velhos.
Não basta ter mediunidade. Mas, é importante que esta seja útil aos interesses do Criador, pois todo médium é um depositário da confiança de Deus. Para ser útil, a mediunidade tem que estar firmada nas instruções que vêm do Alto.
Bom seria se todos os médiuns aplicassem a sabedoria e o conhecimento no aperfeiçoamento da mediunidade e se o estudo continuado fosse uma prerrogativa para um perfeito ministério mediúnico.

Julio Cezar Gomes Pinto
Diretor-Presidente da Casa de Caridade Santo Antônio de Pádua

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O Testemunho Umbandista

Muitos pensam que a boa conduta e o melhor testemunho de verdadeiros filhos de Deus cabem apenas aos crentes cristãos. Até mesmo são julgados em seus comportamentos pelo fato de pertencerem à uma religião crente. De fato, qualquer pessoa que se considera um servo do Deus Criador ou discípulo de Jesus deve primar por uma conduta irrepreensível perante os incrédulos. Deve ser uma pessoa que brilhe nas trevas como um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo. Os adeptos das religiões cristãs seguem um código de conduta que os auxiliam na árdua tarefa de demonstrar ao mundo que foram tocados pelo Deus Vivo e que agora são verdadeiramente novas criaturas, com procedimentos sociais de acordo com o novo nascimento, transformados e iluminados pela Luz Divina. A Bíblia é esse código de conduta e as mensagens dos dirigentes cristãos reforçam a necessidade de mudança interior constante e diária.

Tal proceder nas demais religiões segue sempre um código ou uma diretriz onde o neófito se amolda e altera sua atitudes para melhor. Abandona os vícios e os maus hábitos, interrompe sua trajetória de infração das leis divinas, educa seus pensamentos e suas palavras e passa a anunciar "quão grandes coisas Deus fez" por ele.

Movidos pela alegria contagiante de uma luz que lhes abriu o discernimento e apontou o caminho da perfeição, seguidores de várias religiões trabalham constantemente por trazer para o seu grupo de fiéis, cada vez mais, indivíduos considerados espiritualmente perdidos.

Na Religião de Umbanda, Luz Divina que aponta os caminhos para uma perfeição a ser conseguida a passos lentos, a importância do bom testemunho e a necessidade da boa conduta são quase sempre esquecidas pelos seus adeptos. Sob a proteção do livre arbítrio e da liberdade de expressão que a Umbanda concede em grande escala, grande parte dos médiuns de Umbanda prossegue suas vidas cotidianas sem qualquer preocupação com a remodelação de suas mentes e com o freio dos seus impulsos. Segue seus caminhos sem qualquer responsabilidade com a nova Religião que abraçou.

O médium de Umbanda deve entender que não é porque descobriu ser portador de um dom divino que já está pronto. Não é porque descobriu que pode ser o aparelho de um Caboclo que sua vida espiritual já não precisa de cuidados e aprimoramento. Pelo contrário, agora sim é que deve preocupar-se com suas atitudes, seus pensamentos e sua higiene espiritual. Tendo agora os olhos abertos a uma nova realidade pode visualizar a grande oportunidade de buscar o aperfeiçoamento que a tão misericordiosa Espiritualidade está lhe oferendo.

Já foi falado que a Umbanda é um Pronto-Socorro para as almas aflitas, e tal pensamento não foge à realidade. Mas, a Umbanda é também uma Escola. Na Umbanda, religião surgida dos anseios de milhares de Espíritos ávidos por fazerem a Caridade, todos têm a oportunidade de educar um dom natural chamado mediunidade e têm à sua frente um Caminho aberto para seguir em busca do aperfeiçoamento e em trabalho pelos resgates de vidas anteriores.

O médium de Umbanda não pode ficar de braços cruzados em se tratando de mudança interior. Há muito a fazer! A mediunidade é apenas uma chance de aprimoramento. O dom recebido da Divindade Superior resume-se em chave para a abertura de portas que escondem salões carentes de limpeza existentes no grande edifício da própria alma do médium. Esquecidos pelo tempo, mas vivos e vibrantes aos Olhos Divinos, tais compartimentos do Espírito do médium estão abarrotados de entulhos que se acumulam e criam montanhas de sujeiras.

O código de conduta do médium de Umbanda está nas boas e santas palavras dos Caboclos e dos Pretos Velhos, portadores divinos da Luz e da Sabedoria. É com base nas palavras e nas atitudes exemplares dos Guias de Lei que o médium umbandista deve limpar seu coração e sua mente, tirando do seu Espírito toda a sujeira adquirida ao longo dos séculos e durante sua atual jornada encarnatória.

O umbandista precisa entender que sua evolução não se resume em incorporações ou aplicação de passes. Seu aperfeiçoamento também depende do que faz agora de posse de uma dádiva que é forte e frágil ao mesmo tempo. A perfeição não é apenas receber Entidades, mas está ligada à conduta que representantes desses Espíritos devem procurar cultivar no dia-a-dia. Aperfeiçoamento é algo contínuo e ultrapassa sucessivas vindas e retornos ao mundo material.

O médium umbandista não pode ser aquela pessoa dada a falatórios e mexericos, quando então abre a boca para ferir e acusar seus próprios irmãos de jornada. Covardes, desferem palavras de impropérios aos semelhantes sem que estes tenham oportunidade de se defenderem por força da ausência física. Como bom seguidor da humildade ensinada pelos Pretos Velhos, o médium umbandista abre seus lábios para dirigirem orações e súplicas pelos irmãos que muitas vezes são ignorantes de sua pouca evolução espiritual e, quiçá, intelectual.

O umbandista, representante da Religião inaugurada pelos emissários de Aruanda, tem grande importância na boa impressão que os homens naturais terão à respeito de sua fé. Que fé é essa, perguntarão, se o próprio seguidor anda metido em brigas e contendas, falatórios sem fim, falcatruas de grande torpeza, enganos e mentiras descabidas e mirabolantes, xingamentos e maldiçoes proferidas contra tudo e contra todos, bebedeiras e glutonaria incessantes, sensualidade e promiscuidade descaradas, abusos às Leis Divinas e humanas?

Quem acreditará numa Umbanda cujo seguidor, portador do nobre título de "médium", é um sujeito irascível, briguento, fofoqueiro, mentiroso, soberbo, vaidoso? Esse umbandista transmite boas palavras enquanto incorporado, mas quando consciente de suas ações, despeja grande carga negativa aos semelhantes no uso de palavras que ferem aos ouvidos mais rudes. Seus gestos, no Templo ou na Tenda, são louváveis e nos impelem à imitação, porém na rua ou em casa, seus atos são agressivos, vergonhosos ou animalescos. Enquanto usa as vestes sacerdotais umbandistas, brilha como farol no mar bravio e escuro, mas quando traja roupas seculares e vive entre os normais, envergonha os céus com toda a sua nudez espiritual, trazendo escuridão e trevas nas atitudes e no andar torto.

Tanto melhor que tal seguidor ainda coberto pela grossa casca da materialidade animal não diga que é umbandista, mas perigosa a coisa se torna quando sai divulgando aos quatro cantos sua participação na Religião dos Caboclos e dos Pretos Velhos.

O médium umbandista que galga a perfeição continuamente vigiando os próprios passos e buscando a melhoria individual em qualquer lugar onde as circunstâncias exigem, sem a ajuda das próprias palavras, torna-se um monumento de testemunho da Jurema. Vive na Terra como se caminhasse nos campos de Aruanda ao lado dos Guias de Lei que o acompanham silenciosamente e felizes. Suas pisadas são uma bússola para os que ainda se encontram perdidos nas sendas da vida. Sua luz interna explode em multicoloridos raios luminosos que aquecem espíritos habitantes das gélidas regiões trevosas.


Deus Salve a Umbanda!


Julio Cezar Gomes Pinto

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A Umbanda de Jesus




Sete Encruzilhadas, o Caboclo que anunciou o surgimento da Religião de Umbanda em 1908, declarou que Jesus seria o Mestre a ser seguido pelos umbandistas. Controvérsias à parte, já que alguns não aceitam suas palavras como base para uma vida espiritual sadia, Jesus é o modelo mais perfeito escolhido para ser o espelho dos médiuns e demais seguidores da Umbanda. Não há outro Médium vivido entre os homens que tenha subtraído toda a autoridade do Grande Mestre da Judéia em se tratando de vida mediúnica sadia e correta.
Jesus, o Médium, em nenhum momento fez alarde de sua missão na Terra. Sendo detentor de tanta autoridade, jamais exigiu que os homens se subjugassem a Ele. Jamais impôs sua condição de Ser Iluminado a fim de obter prestígio perante os grandes e diante dos pequenos. Suas palavras, cheias de autoridade, jamais foram autoritárias. Pelo contrário, tinham uma meiguice e uma simplicidade que encantavam os pequenos e incomodavam alguns que se achavam grandes.
Em sua trajetória mediúnica na Terra, Jesus aguardou o momento certo para agir em favor da caridade. Seu primeiro ato caritativo, no casamento de Caná, foi precedido de uma oração feita pela mãe que, aflita, intercedeu pelos noivos e seus pais. Jesus podia muito bem ter feito a transformação do vinho antes mesmo de Maria lhe pedir com tanta veemência, mas aguardou a hora certa. Não se precipitou, mas foi paciente para esperar que o tempo definisse o momento propício.
O médiuns de Umbanda, tanto os que estão iniciando quanto aqueles que já militam na fé, precisam ser menos apressados em ser úteis no trabalho espiritual da caridade. O tempo urge, mas não se precipita. Há médiuns que desejam ou querem tanto ser utilizados como aparelhos dos Caboclos e Pretos Velhos que não se preocupam com o próprio aprimoramento ou com o tempo certo para tal trabalho. Avançam apressadamente para os terreiros, colocando roupas brancas - ou coloridas, como queiram -, enchendo os pescoços de guias sem fundamentos e "incorporando" alguma Entidade. Esquecem-se que incorporar qualquer Entidade não é o principal. Essa faculdade é apenas uma das muitas tarefas a desempenhar durante toda a vida. O início de tudo é a mudança que deve ocorrer dentro de cada um. Assim como foi a transformação que Jesus realizou em Caná, quando a água dos jarros ganhou cor, sabor e essência de vinho.
Apressadamente, muitos médiuns estão servindo fel aos que comparecem às bodas que são realizadas cotidianamente nos Terreiros de Umbanda. Em nome da "vontade" de trabalhar ou "receber" Caboclo - como se isso fosse um verdadeiro milagre - estão sendo depositários de uma bebida amargosa, fétida e intragável, quando incorporam sem o devido preparo espiritual e logo realizam consultas e receitam banhos, garrafadas e obrigações sem fim aos convidados da festa chamada Gira. Não atinam para o fato de que eles próprios são os jarros que devem conter a verdadeira bebida espiritual que servirá para alegrar os corações necessitados que foram chamados a participar do evento. E, como se isso não bastasse, logo depois das primeiras incorporações, já tomam para si o título de "mestre divino".
Satisfeitos de sua capacidade mediúnica de incorporar e de falar em nome dos Pretos Velhos e dos Caboclos, logo sobem num pedestal ilusório e passam a encenar o quadro do Sermão da Montanha. Olham do alto para os irmãos, tal como o humilde Jesus, e orgulhosos iniciam uma pantomima que supostamente pretende ensinar aos fracos e oprimidos da última hora. Baseados em sua pouca experiência e sem a devida mudança de pensamentos, hábitos e desejos, levantam-se de peito inflado e voz autoritária sobre os menos favorecidos como verdadeiros "mestres da Galiléia".
Jesus, o exemplo apontado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, não foi um médium dessa estirpe. Ao contrário, desde moço, encheu-se de sabedoria, discernimento, autoridade e virtude para depois transmitir as novas da salvação aos homens de sua época e os dos dias atuais. Não teve como base seus pensamentos e suas experiências, mas sim as Palavras Sagradas dos Profetas.
Jesus não teve olhos para os reinos do mundo. Como médium poderia servir-se de sua condição para angariar respeito e poder diante dos magistrados, sacerdotes e senhores da Judéia, mas rejeitou os oferecimentos políticos, mundanos e passageiros, para continuar humildemente sua missão na Terra.
Jesus não se intitulou "mestre", mas Filho. Não se arvorou como "doutor", mas apresentou-se como Aprendiz diante do Templo. Não subiu num trono para ser rei, mas encurvou-se como "Servo" aos pés dos discípulos.
Assim deve ser a Umbanda praticada por aqueles que se acham estupendos por incorporarem uma Entidade de Luz. Esse deve ser o retrato daqueles que batem no peito e dizem que são "médiuns".
A Umbanda que Jesus praticou foi simples, sem estardalhaços, sem holofotes, sem soberba, mas cheia de doçura como o vinho e de palavras vivas, como as da Montanha.

Deus Salve a Umbanda!

Julio Cezar Gomes Pinto